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Harry Potter e o Cálice de Fogo

O novo filme Harry Potter e o Cálice de Fogo consegue exprimir o que há de melhor no livro da escritora J.K. Rowling - o amadurecimento dos bruxinhos. Pena que as duas horas e meia de duração não são o bastante para condensar o universo e os conflitos deste que é um dos livros mais intensos da série. No entanto, o diretor Mike Newell consegue realizar um filme consistente e eficaz, enfatizando o torneio Tribruxo e o amadurecimento dos garotos. Neste episódio, não há a presença dos tios de Harry, há pouquíssimas cenas em sala de aula e personagens como Severo Snape, Hagrid e Draco Malfoy pouco aparecem ao longo do filme. Newell recortou bem as peças mais importantes da história e transpôs para a tela numa grata competência.
A direção de Mike Newell era uma das maiores interrogações sobre o quarto filme da série Harry Potter. O diretor de Quatro Casamentos e um Funeral não era bem associado ao cinema de fantasia de Harry Potter. Newell apresenta um trabalho firme que cadencia o suspense e a comédia. A seqüência de Harry com os dragões é uma das mais tensas de toda a série. O trabalho de CG (computação gráfica) na caracterização do dragão e na cena de perseguição é impecável. O filme provoca gargalhadas na platéia com a presença dos gêmeos Weasley, George e Fred. Quando eles aparecem é risada na certa. Porém, os dois mais patéticos do filme são Harry e Rony. Ambos passam por situações cômicas ao tentar convidar uma garota ao baile do torneio Tribruxo. Para Harry é bem mais fácil matar um dragão do que ter coragem de convidar quem ele deseja para o baile. Harry Potter dançando no baile já é a cena mais engraçada da temporada.
O amadurecimento sexual dos personagens é um recorte que torna o filme mais interessante. Harry está crescendo e já tem 14 anos, não é mais um menino. O filme explora essa evolução e constrói assim um terreno seguro para as continuações e os aspectos afetivos que vão ocorrer nos demais filmes. Newell consegue transmitir sensualidade e humor na sequência em que Harry está numa banheira e o fanstama de Murta que Geme fica paquerando-o. É cômico ver Harry juntando sabão para encobrir o pênis. Sutil e engraçado. Outro aspecto relevante é o escancarado ciúme de Rony com Hermione.
A interpretação de Hermione por Emma Watson é um dos poucos pontos falhos da direção de Newell. Ela passa da conta em todas as cenas que interpreta. Ou ela está muito angustiada, muito apavorada ou muito feliz. Não tem ponto médio e abusa das expressões. Ela não consegue repetir o bom desempenho em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.
A três provas do torneio tribruxo são bem realizadas e tensas, mas a prova final do labirinto soa aquém do que poderia ser, tendo em vista que ela culmina na seqüência chave do filme. Um fato que me deixou bastante feliz foi ver sangue em Harry após as provas e o confronto final. Mesmo poderoso, ele ainda é apenas um garoto e está sofrendo com a série de fatos que lhe acontecem. As feições de preocupação de Dumbledore (Michael Gambon) demonstram o temor que ele sente quanto à segurança de Harry. Newell tem uma tendência a enquadramentos fechados que propiciam entender melhor o que o personagem está sentindo. Dumbledore está constantemente angustiado com as provas. Ele sente que há algo errado com o torneio, e que pode colocar Harry em risco.
O filme apresenta problemas ao desenrolar demasiadamente rápido os fatos no começo do filme. Da cena da apresentação dos times na final do Campeonato Mundial de Quadribol, já se corta para o ataque dos comensais da morte. Neste meio fica uma lacuna importante para entender o ciúme de Rony e sua relação de amor e ódio por Vitor Krum. O ataque em si é a pior seqüência do filme, pois não segue a competência das demais seqüências de ação. Os cortes na história acabaram tornando personagens interessantes em meros coadjuvantes. A jornalista Rita Skeeter, que é interpretada brilhantemente por Miranda Richardson, é pouco notada. A exclusão da cena de vingança de Hermione contra Skeeter diminuem a força da personagem na trama. Os cortes são plausíveis. Newell consegue estabelecer Harry no centro do filme, aparando com destreza aquilo que não é relativamente importante para o personagem e a narrativa. Os cortes podem entristecer os fãs mais ortodoxos, mas deixam em aberto nos livros pedaços desse universo, não explorado nos filmes, para novos fãs.
O confronto de Harry com Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é sensacional, em grande parte pela atuação de Fiennes. Ele constrói um vilão temível e austero. A preparação para o renascimento de Voldermort é retratada com o horror peculiar que a bruxaria ou magia negra exerce sobre nós, espectadores. Tão assustador quanto o renascimento é a face de Voldermort. Um misto de homem e cobra. A fantasia dos três filmes anteriores dá lugar ao terror. Pena que o final demasiadamente feliz do filme quebre o clima de temor instaurado em Hogwarts após todos os acontecimentos.
O quarto episódio da série Harry Potter é muito bom, mas ainda falta-lhe algo que o torne impressionante. As escolhas de Newell para o filme funcionam, mas podem servir de pretexto para cortes nos demais filmes que virão. O mérito de O Cálice de Fogo está no bom senso.

Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005)
Direção: Mike Newell
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Ralph Fiennes.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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