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Se Beber, Não Case!

Quinta-feira, Outubro 15, 2009
O casamento é, certamente, um dos momentos mais memoráveis na vida de uma pessoa. Para os homens, um rito importante, é a despedida de solteiro. É uma grande festa, as vezes regada de muitas bebidas e mulheres. Doug (Justin Bartha) irá se casar e seus amigos irão celebrar os últimos dias de solteiro dele em Las Vegas. Um brinde entre os quatro amigos e "amnésia". A festa foi tão apoteótica, vide o estado deplorável que ficou o quarto do hotel, que os três amigos de Doug não se lembram de absolutamente nada da noite anterior. Cambaleantes e com ressaca, eles tentam organizar as idéias, mas deparam com um problema ainda maior - o noivo sumiu e eles não lembram onde o deixaram.

Se Beber, Não Case! é um sucesso de bilheteria por um fato simples - o longa é muito bom e proporciona ao espectador o nível de entretenimento que ele espera ao assistir um filme. Portanto, a famigerada crise cinematográfica acontece para os filmes mal escritos, com interpretações sem energia e direção chata e burocrática. O longa dirigido por Todd Phillips reitera a boa fase do gênero da comédia em Hollywood, que ganhou um novo fôlego após uma excelente safra, capitaneada pelos trabalhos de Judd Apatow (Virgem de Quarenta Anos / Ligeiramente Grávidos) .

O maior mérito do roteiro está em nunca mostrar a festa. Os amigos fazem um brinde à grande noite que está por vir e a cena seguinte já os mostra bêbados e dormindo após a festa. Aquilo que o espectador não viu, o que já atiça a curiosidade, é o que vai conduzir os três amigos ao longo da trama. Eles não sabem onde deixaram o noivo, mas tão pouco sabem o que eles fizeram. Como procurar algo que você nem se lembra? Essa estupenda sacada do roteiro só não é melhor que as hilariantes revelações sobre o que eles fizeram na noite passada. Se prepare para rir, e não tome refrigerante em demasia, pois essa combinação acarretará riscos de acidentes urinários.

Algumas das piadas são um tanto politicamente incorretas, o que dá uma camada mais ácida ao filme. Afinal, apesar das incontáveis gargalhadas, o roteiro propõe também algumas reflexões sobre a maturidade masculina, os complexos sexuais dos homens e até a representatividade de ter uma companheira para a vida toda. Perceba que boa parte dos filmes dessa excelente safra de cómedias discute complexos masculinos, vide Ligeiramente Grávidos, Virgem de Quarenta Anos, Penetras Bom de Bico, etc..

Todo o pandemônio surreal que acontece com os quatro amigos, incluindo ser nocauteado com um cruzado de direita de Mike Tyson (ele mesmo), só serve para deixá-los ainda mais únidos e lembrá-los: o que acontece em Vegas, permanece em Vegas. E convenhamos, uma boa noitada em Las Vegas pode fazê-lo perder os dentes, casar-se com uma desconhecida ou até fazer xixi ao lado de um tigre.

Se Beber, Não Case! já é de sobra um dos melhores filmes da temporada, que merece ser visto, revisto e indicado aos amigos. Por mais que o marketing da indústria cinematográfica nos induza a engolir bobagens e mais bobagens, ano após ano, a melhor divulgação ainda é o boca a boca. E aí, vá ver, e conte para alguém.


Se Beber, Não Case! (Hangouver - 2009)
Direção: Todd Phillips
Duração: 1h40 minutos

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Dexter - 4x1

Quinta-feira, Outubro 01, 2009
Dexter Morgan está casado, possui um filho e suas noites são cada vez mais cansativas. Afinal, é muito mais fácil matar uma pessoa do que fazer uma criança dormir. A ironia e sarcasmo, que tornam a série uma da mais peculiares e interessantes da atualidade, retornou triunfante. Já no início Dexter questiona que deve haver uma razão para seguir um certo clichê ao contextualizar um serial killer - eles não são apresentados aos espectadores trocando fraldas. As gargalhadas que brotam a cada piadinha que Dexter faz relacionada a família ou crianças sinaliza o óbvio - a série mais inteligente da TV está de volta.

A quarta temporada apresenta um novo assassino em série, Trinity Killer, interpretado pelo excelente John Lithgow. Apesar de uma breve aparição, o novo rival de Dexter é um assassino meticuloso e ao que tudo indica, há muitos anos vem matando. O retorno do agente Frank Lund (Keith Carradine), que agora aposentado investiga por conta própria o rastro de Trinity, deixa claro o quão relevante é esse assassino.

O ponto que chama a atenção, e tende ser o fio condutor dessa temporada, é o cansaço que a dupla vida terá nas ações de Dexter. Para alguém tão meticuloso, o descuido de Dexter foi a marca desse episódio. Dados errados no tribunal, sono antes de capturar a futura presa e o acidente de carro. Invariavelmente isso afetará ambas as vidas dele, e acredito, que ele se sentirá balançado a escolher uma delas. Provavelmente, a conduta de Trinity Killer, que passou anos sem ser capturado, será um peso nessa balança. Resta-nos acompanhar os próximos capítulos.

Dica Brainstorm #9 - Para a estréia da quarta temporada de Dexter, a ABC disponibilizou uma curiosa peça de marketing chamadoa “Where’s Dexter?”. A peça é na verdade um jogo no estilo "Onde está o Wally", em que você terá que achar o personagem de Dexter em meio a uma multidão, e assim passar para o próximo nível. O bacana é que a peça usa a ferramenta de anotação do YouTube e mostra que a web 2.0 ainda vai possibilitar muitas novidades. Ache-o.




Dexter - 4x1 - Living the Dream (2006)
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Abraços Partidos

Terça-feira, Setembro 29, 2009
Mateo Blanco (Lluís Homar) é um diretor de cinema, apaixonado pela aspirante atriz Lena (Penélope Cruz). Harry Caine (Lluís Homar) é roteiristas, cego, que tenta viver sem seu grande amor. A semelhança amorosa entre os dois vai além do cinema ou da mesma mulher, pois ambos são a mesma pessoa.

Com essa sinopse surreal, que modestamente construí, tento apresentar um pouco do enredo de Abraços Partidos, sem entregar as surpresas dessa maravilhosa obra-prima (de novo) de Pedro Almodóvar. O Sr. Vermelho Berrante, apelido carinhoso que dou a Almodóvar, acerta ao realizar um filme simples, estéticamente no ponto, com atuações regulares e com um roteiro espetacular. Para quem acompanha a carreira do diretor, percebe-se que gradativamente ele tem amenizado os maneirismos estéticos e investido na dinâmica da narrativa.

O longa inicia-se dividido em duas narrativas, de Mateo Blanco e de Harry Cane, mas que aos poucos vai se condensando na mesma estória. O roteiro conduz o espectador com firmeza e elegância, apesar da estranheza inicial gerada em relação as duas personagens. O espectador vai montando o pequeno quebra-cabeça, junto pistas e colhendo recompensas.Terminado o primeiro ato da estória, o espectador já está imerso nela. O roteiro é o grande mérito do filme.

Penélope Cruz surge menos estonteante do que em Volver, mas entendendo-se como peça coadjuvante desta estória, ela não busca brilhar mais que as duas personagens principais, o diretor e o roteirista. A atuação de Penélope, que interpreta uma atriz, estabele o elo entre os protagonistas. Um elo frágil, que ao longo do filme, mostra como uma pessoa pode ser dividida em duas. A interpretação de Lluís Homar é algo curioso de se debater, afinal, o filme é um tanto quanto carregado por ele. A atuação dele converge toda para a estória e o espectador, hipnotizado por ela, não repara se o ator realizou ou não um trabalho digno de premiações. Méritos ao Sr. Vermelho Berrante (Almodóvar), que conduz com destreza, na medida correta que deseja, os atores com que trabalha. Abraços Partidos é um filme, essencialmente, triste e discreto, e que para tal possui atuações sutis, sem excessos.


Almodóvar, ao que tudo indica, é uma das poucas lendas vivas do cinema atuando em plena forma, atualmente, na sétima arte. A cada novo filme percebe-se que esse gênio-maluco espanhol tem uma visão sobre o mundo, que apesar de fora dos padrões convencionais, nos emociona. É bom ser cinéfilo e acompanhar a carreira de um cineasta que será, certamente, uma lenda. Triste é ter que baixar o filme na web, pois a distribuição no país anda demorando demais.


Abraços Partidos(Los Abrazos Rotos - 2009)
Direção: Pedro Almodóvar

Duração: 128 minutos

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FlashForward - 01x01

Segunda-feira, Setembro 28, 2009
Imagine-se dirigindo um carro, em uma velocidade considerável, e de repente, você apaga. Um desmaio rápido, precisamente de dois minutos e dezessete segundos, na qual, infelizmente, você provoca um grave acidente. Imagine agora que todos no planeta, ao mesmo tempo que você, também apagaram. São milhares acidentes e milhões de vítimas. Esse misterioso evento é o ponto inicial, e instigante, de FlashFoward, a nova série da ABC.

Baseado no livro homônimo de Robert J. Sawyer (ainda não lançado no Brasil), a série antes de mesmo de ir ao ar, já ganhou o pesado fardo de ser a substituta de Lost, que exibirá em 2010 sua última temporada. A ABC aposta forte no projeto, vide o elenco com Joseph Fiennes, Dominic Monaghan (O Charlie de Lost), Sonya Walger (A Penny de Lost), e um episódio piloto de tirar o fôlego.

Mark Benford (Joseph Fiennes) é um agente do FBI que durante uma ação investigativa apaga ao volante. Os breve dois minutos, entretanto, não são de completa escuridão. Mark vê imagens confusas e sem conexão, algo parecido com sonhos, afinal, não se tratam de lembranças. Após verificar que o mesmo ocorrera aos demais habitantes do planeta, inclusive os tais flashes, ele constata que as visões são na verdade breves instantes do futuro.

A primeira impressão sobre a série é: ai, aí, mais uma para acompanhar, deixe-me verificar a agenda. Ou seja, com cliffhanger estonteante (não vou revelar, vá ver), FlashForward lhe convida a embarcar nesta viagem sci-fi, com enorme potencial dramático e reflexivo. Afinal, se você soubesse que daqui seis meses você estará morto, ou divorciado, ou grávida, ou beijando a filha que você julgava morta, o que você faria? Ia de encontro ao futuro ou fugiria dele ?


FlashForward - 1x1 - No More Good Day (2009)

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Distrito 9

Quarta-feira, Setembro 23, 2009
Uma nave espacial chega ao planeta Terra e escolhe Joanesburgo, na África do Sul, como local de parada. Após semanas planando sobre a cidade, um equipe "humana" resolve averiguar quem ou o que há dentro da espaço-nave: milhares de alienígenas desnutridos e carecendo de cuidados. Humanamente, é oferecido auxílio aos novos amigos, que passam a viver em solo terreno, em um lugar reservado denominado Distrito 9. O que inicialmente é uma área de socilização e adaptação para os visitantes, com o passar dos anos se torna um gueto. Contudo, com uma diferença, negros e brancos são unânimes - esses camarões não são bem-vindos.

Distrito 9 é disparado o filme mais impactante da temporada 2009 e dificilmente será superado. Toda essa frenética bajulação repleta de adjetivos que a web propaga sobre o filme é realmente verdade. Primeiramente, é um filme de ficção científica com um recorte sociológico interessantíssimo. Ele trata os alienígenas como membros inferiores da sociedade, estabelecendo um certo paralelo com o racismo, a favelização e a exclusão social.

Entretanto, o aspecto diferencial da produção são os efeitos visuais. Em Distrito 9 os efeitos soam orgânicos e funcionais, a ponto de não conseguir notá-los ou mesmo distinguir o que é ou não efeito. Perceba nas conversas entre os humanos e alienígenas, não parece que o ator está conversando com algo que não está ali. Imagina-se então que o alienígena é um outro ator vestindo um figurino, quando "vrupttt", o alien faz um movimento humanamente impossível de ser realizado. Seu cérebro lhe envia a mensagem - é realmente um efeito - mas você não consegue acreditar. O mérito desse impecável trabalho de pós-produção, em parte é da Weta Digital, de Peter Jackson, que também assina a produção do longa.

O ponto mais fraco é o roteiro, que segue a fórmula, mocinhos pra cá, bandidos pra lá e um herói tentando se encontrar ao enfrentar as próprias limitações. Como filme de estréia, o diretor Neill Blomkamp, optou em não arriscar narrativamente. O que para alguns críticos soou como covardia, para mim foi uma cautela razoável. Cinema é negócio, portanto, é preciso vender os ingressos e quem sabe no futuro fazer uma grande obra de arte. Blomkamp fez um longa apreciável, com efeitos visuais hipnotizantes e deixou uma janela aberta para continuação. Quem sabe no próximo capítulo, já que os efeitos não surtirão o mesmo impacto, o roteiro seja mais aprofundado, pois campo para isso tem. Mas não custa lembrar da Síndrome de Matrix - muitos efeitos para acobertar a falta de direção.


Distrito 9 (District 9 - 2009)
Direção: Neill Blomkamp
Duração: 112 minutos

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Deadgirl

Terça-feira, Setembro 22, 2009
Dois jovens amigos matando aula resolvem passar o tempo visitando um antigo hospício desativado. Entre uma cerveja e outra eles adentram as escuras e vazias instalações e descobrem um corpo. Entre a curiosidade e o fascínio, ambos observam o corpo nú de uma mulher amarrada. A melhor tabulação de aula da vida deles só não contava que a garota ainda estava viva.

Deadgirl é um filme meio lento, sem um grande charme, que em seu princípio apresenta um leque de clichês do gênero de horror / suspense. Contudo, ao revelar o segredo da garota morta [claro que não vou contar] ganha uma camada bastante interessante e atiça a curiosidade do espectador. Dois adolescentes, no ápice da puberdade, vendo uma mulher nua amarrada, já se imagina que tipo de "merda" vão fazer. É isso aí, transar com uma mulher semi-morta.

O filme brinca, de forma até perigosa, com a idéia do estupro, pois os dois amigos começam compartilhar a mulher com outros colegas. Mas algo mórbido e perigoso se esconde por trás dessa mulher que pouco reage as investidas sexuais dos garotos.

O longa tem suas falhas, sobretudo no já batido tema do garoto que se apaixona pela garota inalcançável. Entretanto, é a partir desse tema, que se constrói a mensagem sombria e de desesperança que filme propõe sobre a atual juventude. Todo o nojo e repugnância que o longa suscita, na verdade se dá pelas atitudes dos jovens, o que leva o espectador a torcer para que a mulher, ou seja o que for aquilo, mate a todos.

Deadgirl é um bom filme para quem aprecia o gênero do terror e quer experimentar algo novo, com leve sopro de inteligência e menos sangue à base de suco de groselha. Vale a pena dar uma conferida.



DeadGirl(2008)
Direção: Marcel Sarmiento e Gadi Harel
Duração: 114 minutos

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Prison Break - 4x21 e 4x22 (Final da Série)

Sábado, Maio 16, 2009
Prison Break apresentou um final digno ao fãs que desde de 2005 acompanham está série permeada de reviravoltas, conspirações e a genialidade de Michael Scolfield. Natural que os dois últimos episódios fossem uma síntese de toda a série, e o foi. Não consigo me lembrar de tantas reviravoltas em tão poucos episódios como ocorreu nestes dois que fecharam a série. Ação, drama e o coração na mão por quase duas horas, e enfim, a saga de Scofield e Burrows chegou ao final.

A volta de alguns personagens soou como um agradecimento da série aos atores e mesmo um alívio para os fãs destes. Ver Sucre no final me deixou feliz, como me instigou o retorno Kellerman. No entanto o que mais me tocou, não foi o trágico e sensato final, mas a frieza de Michael ao apertar o gatilho contra a própria mãe. (In)Felizmente, ou não, a arma falhou. Nosso herói passou por muita coisa nestes quatro anos para salvar o irmão, e ainda assim, a mãe dele atirou em todo este esforço. Portanto, Michael também atirou. Achei tocante e forte essa cena.

Sou um grande fã do trabalho realizado por Robert Knepper, que interpreta T-Bag, que no último episódio deu seu showzinho particular numa das mais repugnantes cenas de toda a série. O nojo que esse estupendo ator nos provoca é algo sensacional. Todos nós fãs da séries torcemos para que T-Bag fosse morto, e se possível, com toques de crueldade. Ao fim da jornada ele acaba voltando ao início, sendo o gigolô do bolsinho. Morrer é fácil, viver e retornar ao começo em Fox River deve ter sido muito doloroso. Ele mereceu.

Chega-se ao fim, todos estão bem e livres. No entanto, Scolfield falece anos depois em função da doença que afetava o cérebro. As rimas visuais com o filho de Michael, que leva o mesmo nome, ao mostrá-lo tatuando o braço, já nos prepara para as lágrimas. E elas vem. Mais do que a genialidade dele, perdemos um ser humano inigualável, que abdicou da segurança do seu mundo, por amor ao irmão. E nem irmão sanguíneo Burrows era na verdade, o que eleva a dor desta perda a um patamar ainda mais alto. Minha esposa, companheira constante de cada episódio desta série, se afundou em lágrimas. Eu tentei me conter, mas não foi possível. Não chorei só a morte de Scolfield, chorei o fim de Prison Break. Sentirei saudades. Mas como na morte, a saudade é coisa boa. É uma referência eterna que temos daquele que se foi. Fica estabelecido em mim, e nos demais fãs de Prison Break o alto nível para este estilo de narrativa com intrigas conspiratórias e fugas mirabolantes. Um fim digno de para uma série fabulosa.

Um parênteses precisa ser aberto no que tange a coragem deste final, com a morte do herói. Na narrativa do cinema, matar o herói é praticamente uma estupidez. Há exceções como em X-Men, só espero que isso se mantenha nos próximos filmes da saga. Já as séries de TV, que andam roubando a audiência dos cinemas, andam revolucionando a narrativa ao aprofundar em temas que antes eram ditos como equivocados. Antes, bandido era bandido até o fim. Agora, o mal pode se tornar bem, como foi na redenção e o fim de Belick. A séries de TV estão experimentando e quebrando convenções narrativas. Em Prison Break, a dor da perda do herói acaba transformando a personagem em uma espécie de mito. A genialidade de Michael salvou a todos, mas não conseguiu evitar que a doença o levasse. Isso traz a imagem do herói para um mundo mais palpável, pois se convive com isso a todo dia, com pessoas boas que se vão tão cedo sem a gente entender direito. É esta sensibilidade que as séries de TV andam esbanjando, e o cinema carece. Analisando a morte de Scolfield pelo ponto de vista da propriedade intelectual dos criadores da série, matar o herói evita que futuramente algum produtor ganancioso ressuscite-o para uma nova empreitada caça-níquel. Uma série corajosa como essa, tinha que acabar com algo realmente diferenciado.

Agora resta esperar o DVD The Final Break, que será lançado em julho, com dois novos episódios que vão explorar mais a fundo alguns dos eventos antes da morte de Scolfield.



Prison Break(2009 - Season 4)

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Superbad – É Hoje

Sexta-feira, Março 28, 2008
Superbad – É Hoje é uma daquelas comédias adolescentes em que a trama circunda a incansável procura juvenil pela primeira transa. Apesar da existência de inúmeras comédias que têm como base o mesmo enredo, poucas são eficientes. Entretanto, essa grata comédia entra fácil no seleto grupo onde se encontram Porky's - A Casa do Amor e do Riso, O Último Americano Virgem e o primeiro American Pie.

O longa é produzido por Judd Apatow, responsável por Virgem aos 40 anos e Ligeiramente Grávidos. A trama gira em torno das desventuras de três adolescentes que precisam comprar bebidas, de forma ilegal, para uma festa e assim embebedarem as garotas e conseguirem transar. O filme é divertidamente desbocado (a palavra "fuck" é dita 186 vezes), engraçado e ainda proporciona piadas muito inteligentes, sobretudo relacionadas à cultura pop atual. Ressalto a ótima trilha sonora em que se sobrepõe o funk. Não a dos morros cariocas, mas o original, made in anos 70. Outro parênteses é a hilária dupla de policias bêbados.

Maior mérito do longa é em meio a tanta bobagem divertida realizar uma mensagem final sutil, sem forçar a barra ou apelar para reflexão moral. Superbad – É Hoje é um besteirol bem bacana, mas desaconselhável para aquela tia velha solteirona que só de ver um membro genital masculino desenhado se ruboriza toda. Acredite, tais desenhos aparecem até nos menus do DVD. Insano, mas muito divertido.


Superbad – É Hoje (2007)
Direção: Greg Mottola
Elenco: Jonah Hill, Michael Cera, Christopher Mintz-Plasse, Bill Hader, Seth Rogen.
Duração: 114 minutos

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Rambo IV

Sexta-feira, Março 28, 2008
Depois da apreciável sexta continuação da série Rocky (Rocky Balboa) no ano passado, a quarta edição de Rambo despertou certa curiosidade. Infelizmente, o amadurecimento de Stallone visto no longa do boxeador, em Rambo IV é substituído pelo saudosismos anos 80 com leves toques de sadismo.

O filme é uma espécie de ode aos grandes filmes de ação das décadas passadas. É uma soma de Braddock – O Super Comando, O Predador, Comando Delta, entre outros em que as metralhadoras são praticamente as protagonistas. Para os amantes do gênero o longa é um prato cheio – muita ação, sangue, cena de redenção e uma estória que... ah, dane-se a estória. Defendo a escolha de Stallone, que realizou este projeto focado no público que construiu a sua carreira. Uma pena que parte deste público, em que me incluo, felizmente evoluiu.

Para os fãs de filme de horror, Rambo IV é disparado o filme mais sangrento da temporada. A computação gráfica é utilizada ao extremo para produzir cabeças perfuradas à bala, pedaços de corpos voando pelos ares e cenas extremamente sádicas. Lá no fundo, a construção maniqueísta da trama faz o espectador implorar para que Rambo trucide os oponentes. É isso que ele faz. Como ode aos filmes de ação do passado Rambo IV é aceitável e irá agradar os fãs. Porém, os demais espectadores irão torcer o nariz e olhar com pesar para o precipício na qual a carreira de Stallone caminha.


Rambo IV (2008)
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sam Elliott, Sylvester Stallone, Matthew Marsden, Graham McTavish, Julie Benz.
Duração: 93 min

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Terça-feira, Março 18, 2008
O fascínio humano pelo mal, ou mesmo pelo lado obscuro, é algo intrigante e que é facilmente averiguado desde os tempos mais remotos. Por mais que a estrutura narrativa do cinema nos condicione, ou mesmo nos doutrine, a gostar do mocinho, há sempre uma parcela que , se não admira, respeita o bandido. Jesse James é um dos bandidos mais conhecidos da história americana e suas estórias sempre despertavam temor é curiosidade. O longa do diretor Andrew Dominik narra a trajetória de um jovem cujo fascínio pelo ídolo se transforma em um funesto e melancólico embate de sentimentos - idolatria versus inveja.

O filme pode ser percebido, superficialmente, como um faroeste contemplativo. Basicamente são lindas imagens permeadas de ricos diálogos e pouquíssima ação. Entretanto, o ritmo cauteloso dosa com eficiência as inúmeras nuances da estória, deixando a trama gradativamente mais carregada e triste. Paradoxalmente, a sensação quase fúnebre que o longa transmite, afinal é um filme que nos prepara desde a primeira cena para a morte do protagonista, é contraposta com imagens belíssimas. A fotografia, a cargo de Roger Deakins, que parece transbordar da tela, é usada com inteligência para pontuar a narrativa. Perceba que quando o narrador fala, as imagens parecem contemplar o passado, sendo algumas desfocadas nas bordas. A concepção fotográfica nas cenas que antecedem o assalto ao trem são dignas de serem emolduras e afixada na parede.

Outro ponto substancial é a trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis, que pontua sonoramente o clima fúnebre do filme. Porém, quem rouba literalmente a cena, [desculpe o trocadilho previsível] é Casey Affleck, como Robert Ford. Uma atuação detalhada que cresce no ritmo do longa e que derrama todo o talento desse promissor ator nos minutos antes da cena mais aguardada, o assassinato. Curiosamente é a segunda atuação excepcional que destaco de Casey em trabalhos de 2007, sendo o primeiro por Medo da Verdade. Brad Pitt está bem, e é bom vê-lo escolhendo projetos mais ambiciosos para sua carreira. O último bom trabalho de Pitt no cinema foi em Clube da Luta.

Agora, os louros por essa pérola cinematográfica é o diretor Andrew Dominik, também responsável pelo roteiro, baseado no romance de Ron Hansen. Apesar de toda beleza das cenas e a articulação cuidadosa da trama no roteiro, Dominik se mostra um diretor simples, sem grandes estripulias visuais. Diante de uma estória tão densa e carregada de reflexões, ele opta acertadamente em simplesmente contar ao espectador que: Jesse James morreu assim, e Robert Ford, o assassino, fez isso por que no fundo queria ser igual ao bandido-mito. Parece simples, mas não é.

Engraçado, que apesar de toda ambientação faroeste, do fim do século XIX dos EUA, o longa me remeteu ao assassinato do Beatle John Lennon. O fascínio e a idolatria que aparentemente podemos associar com o amor, pode se transformar em inveja, rancor, portanto ódio. Há quem diga que uma linha muito tênue divide os dois. Robert Ford achou que se tornaria famoso por dar fim a um assassino, entretanto ele matou um mito. O longa fecha de forma sublime salientando isso, pois quase ninguém sabe quem foi Robert Ford. E mesmo agora, quando o filme da vida dele está distribuído pelo mundo, dirige-se a ele como covarde. Mas afinal, quem matou John Lennon mesmo? Sei lá, o que importa que continuo amando Imagine. Mata-se o homem, nunca o mito.


O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2006)
Direção: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Zooey Deschanel, Jesse Frechette, Mary-Louise Parker, Sam Rockwell, Paul Schneider, Sam Shepard.
Duração: 160 minutos

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Saneamento Básico – O Filme

Terça-feira, Março 18, 2008
O longa do diretor Jorge Furtado (O Homem que Copiava) é uma linda homenagem a arte do cinema. A trama discorre sobre uma comunidade do interior que necessita de uma obra para construção de uma fossa. Entretanto, a prefeitura não dispõe de verba para faze-la e a única disponível é para realização de um vídeo de 10 minutos de duração.

O filme de Furtado é uma inteligente brincadeira com o jocoso questionamento, realizado por críticos, do uso de dinheiro público para financiar o cinema nacional. Apesar da nítida homenagem a sétima arte e o claro posicionamento do diretor a favor dela, Furtado ainda critica a disparidade de ter bons e grandes recursos destinados à arte enquanto a população mal tem acesso as necessidades básicas, no caso, o saneamento.

A aparente ignorância dos personagens sobre como fazer um filme é utilizada com maestria para mostrar aos espectadores como é o processo de concepção do cinema. Em uma cena, Furtado, faz uma comparação entre o novo e o velho cinema, usando como artifício aparelhos de som de carros – CD versus fita cassete. Otaviano (Paulo José) e Antônio (Tonico Pereira) choram escutando a música da fita. A beleza não está no aparato tecnológico e sim na obra de arte que a utiliza. Ou seja, cinema bom não que dizer cinema caro. Saneamento Básico – O Filme é um entretenimento divertido, inteligente e uma obra-prima do Cinema Nacional.


Saneamento Básico - O Filme (2007)
Direção: Jorge Furtado
Elenco: Wagner Moura, Fernanda Torres, Camila Pitanga, Paulo José, Tonico Pereira, Bruno Garcia, Lázaro Ramos.
Duração: 112 minutos

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Os Donos da Noite

Terça-feira, Março 18, 2008
Um filme simples e bem feito que tem seus tropeços de roteiro suavizados por boas atuações, um bom ritmo e gratas reviravoltas. Apesar do começo irregular, a trama cresce muito com a primeira reviravolta, e as boas atuações de Phoenix, Wahlberg e Duvall elevam o longa, que por muito pouco não se torna num daqueles filmes policiais inesquecíveis. O longa pode remeter ao Oscarizado Os Infiltrados, porém com um final mais contundente e realista do que o politicamente correto e hipócrita realizado por Scorsese.







Os Donos da Noite (We Own the Nigth - 2007)
Direção: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Eva Mendes.
Duração: 117 minutos

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Oscar 2008 - Depois dos prêmios

Segunda-feira, Março 17, 2008
OSCAR 2008 - No dia 24/02 foi realizado no Kodak Theather, em Los Angeles, a cerimônia de entrega do Oscar 2008. O primeiro passo para se tornar um bom cinéfilo é assistindo aos bons filmes da temporada. O Oscar ainda é um bom termômetro, embora ano após ano indique e premie obras de gosto duvidoso. Para a maioria dos espectadores os filmes indicados pela Academia são filmes estranhos, sem ação e chatos (exceto Titanic, claro). Cinema além de entretenimento é, das formas de arte, a mais ágil e simples para transmitir conhecimento. Se você quer saber sobre a independência da Índia e tem preguiça de ler, veja Gandhi (Vencedor do Oscar em 1982). Quer saber sobre a Segunda Guerra, o holocausto, o genocídio judeu, veja A Lista de Schindler (Vencedor do Oscar em 1993). As informações podem ser um tanto superficiais sobre o assunto, mas o cinema serve como ponto inicial de um processo maior de busca pelo conhecimento. A premiação do Oscar talvez pouco importe ao cinéfilo, porém a lista de indicados é essencial para direcionar – “quais filmes eu ainda preciso ver”.

O grande vencedor da noite foi Onde os Fracos Não Têm Vez, levando as estatuetas de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante (Javier Barden). Indiscutivelmente, o longa dos irmãos Coen é excelente e reflete a atual aridez, brutalidade e pobreza da alma humana. Assisti-lo é obrigatório, entendê-lo é algo bem mais difícil. As obras, quase sempre primas, dos irmãos Coen são difíceis de apreciar, e por vezes têm lá um gosto um tanto amargo. Alheios ao frisson da premiação os irmãos apenas agradeceram por continuarem brincando de fazer filmes no cantinho da caixa de areia do enorme playground que é a industria cinematográfica americana.
A surpresa pouco comentada da noite foi a vitória de O Ultimato Bourne, terceiro filme da Trilogia Bourne, que ganhou as três estatuetas a qual concorria, Melhor Montagem, Edição de Som e Mixagem de Som, ficando apenas atrás de Onde os Fracos Não Têm Vez no número de premiações. Outra boa surpresa foi a hegemonia européia na premiação de atores. O Melhor Ator, Daniel Day Lewis e a melhor atriz, Tilda Swinton, são ingleses. O Melhor Ator Coadjuvante, Javier Bardem, é espanhol. E a Melhor Atriz Coadjuvante, Marion Cotillard, é francesa. Lembrando que no ano anterior o México se destacou através do filme O Labirinto do Fauno, de Guilhermo Del Touro. A globalização parece ter chegado de vez a Hollywood.

Passe na locadora e confira Ratatoiule, vencedor do Oscar de Melhor Animação, e no meu entendimento, o melhor filme do ano de 2007. Outro Oscarizavel já em DVD é O Ultimato Bourne. Neste caso, os três são obrigatórios.
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Medo da Verdade

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
Que Ben Affleck é um ator regular, porém esforçado, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro pelo ótimo Gênio Indomável [dividiu o prêmio com o amigo Matt Damon], bonitão e que se encaixa em qualquer comédia romântica que venha a ser escrita em Hollywood, isso todo mundo sabe. Agora, nem o mais otimista dos fãs do ator previa uma estréia tão pungente dele do lado de trás das câmeras. Medo da Verdade é o primeiro [e invejável] longa de Affleck assumindo a direção.

Um jovem casal de detetives particulares, Casey Affleck (Patrick Kenzie) e Michelle Monaghan (Angela "Angie" Gennaro), são designados para investigar o misterioso desaparecimento de uma menina. O que parece ser um típico caso de seqüestro ganha desdobramentos inusitados. Quanto mais profundo a investigação segue, mais risco eles correm, inclusive a relação afetiva entre os dois.

Medo da Verdade é um daqueles filmes que viram sucesso de locadora. Uma pessoa vê, acha sensacional, indica para outra, e assim sucessivamente. Com um roteiro recheado de conflitos, ganchos e reviravoltas [bem feitas], o longa é um exemplo raro da comunhão de cinema arte com entretenimento. Tanto o cinéfilo veterano quanto o espectador mais simples sairão satisfeitos. O segredo disso: uma boa estória, muito bem contada.

Apesar do filme ter um elenco invejável, que ainda possui Morgan Freeman (Jack Doyle) e Ed Harris (Detetive Remy Broussard), as atuações são contidas, mas eficientes. O destaque fica por conta de Casey Affleck (é o irmão mesmo) que conduz o espectador com segurança pela trama. A identificação do espectador com o investigador é providencial para funcionamento do filme. Inúmeros longas na mesma linha de Medo da Verdade não dão certo, mesmo com boas estórias, por conta da fragilidade no processo de identificação. Ponto para os Afflecks.

Ben Affleck se mostra um diretor tímido, sem firúlas, que sabe que sua obrigação é servir à estória. E que estória. O roteiro de Aaron Stockard e Ben Affleck, baseado em livro de Dennis Lehane, instiga progressivamente o espectador. A reviravolta final além de tirar o fôlego nos convida a fazer uma escolha das mais interessantes e imorais que já vi no cinema. A arte, no caso o cinema, é importante para cutucar, aflorar e discutir temas ou mesmo sentimentos que temos, e às vezes não damos conta disso. E você, o que teria escolhido se fosse o detetive Kenzie? A ética e a moral pede um coisa, o funcional pede outra.

Medo da Verdade pode não ganhar o Oscar ou nadar em milhões de bilheteria, mas seguradamente, será uma constante referência quando o tema for filmes de suspense investigativo. Só espero que a boa estréia de Ben Affleck na direção, seja descoberta em tempo. Quem sabe antes do filme chegar as locadoras.


Medo da Verdade (Gone Baby Gone - 2007)
Direção: Ben Affleck,
Elenco: Casey Affleck, Morgan Freeman, Ed Harris, Michelle Monaghan, Amy Ryan.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Onde os Fracos Não Têm Vez

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
Todo cinéfilo que se preze, ou mesmo aqueles metidos a descolados, tem na ponta da língua o filme favorito dos Irmãos Coen. O meu é O Homem Que Não Estava Lá. A propósito, era, agora é Onde os Fracos Não Têm Vez.

O novo longa dos irmãos foi bem recebido pela crítica americana, que antecipadamente já clamava por Oscars. Tal frisson gerou certa desconfiança, afinal: teriam os irmãos abandonado o estilo Coen de cinema e optado pela receita pré-moldada tudo pela a estatueta? Felizmente, o filme é um legítimo produto Made-In-Coen, com final estranho e todas as particularidades que eles sabem fazer.

Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra uma mala cheia de dinheiro em um deserto que acabara de ser palco de uma trágica negociação de venda de drogas. Diante do sumiço da mala um assassino é contratado para recuperá-la. Anton Chigurh (Javier Bardem) é um assassino frio e meticuloso, que possui uma maneira particular de executar suas vítimas. Ambos promovem um sangrento jogo de gato e rato, no qual apenas um sairá vivo.

A impressão mais forte de Onde os Fracos Não Têm Vez é cara blasé e sem sentimentos de Chigurh – o assassino. A personagem, brilhantemente interpretado por Bardem, entra fácil na lista dos maiores e mais assustadores vilões do cinema. A cena em que ele aborda um motorista fingindo ser um policial e usa sua arma esquisita é de tirar palavrão da boca do mais puritanos. Apoiado em um bom roteiro, baseado no livro de Cormac McCarthy, e dirigido com o tato preciso dos Irmãos Coen, cenas aparentemente bobas, se tornam diamantes cinematográficos. Cito como exemplo, a tensão no jogo vida ou morte, através do cara ou coroa que o assassino faz com o velho da loja. É uma daquelas cenas que dá inveja e vontade de dizer: “Eu queria ter feito essa”

As atuações de Josh Brolin e Tommy Lee Jones (xerife Ed Tom Bell) são eficientes, mas são atropeladas pela avalanche Bardem. Bell é um policial em fim de carreira e a personagem assume um papel lírico e reflexivo na trama. Quem não conhece a obra dos irmãos Coen pode até se assustar com o final estranhamente reflexivo de um filme até então, tão sangrento. Entretanto, é neste final que reside toda a essência do longa, mostrando a impotência do homem diante de tanta atrocidade que vem acontecendo no mundo. Não é atoa que o longa se chama Onde os fracos não têm vez, ou Não há país[terra] para homens velhos, do original em inglês No Country for Old Men.

Vale uma menção ao som do longa, que aliado a edição promove bons sustos. O aspecto sonoro de um filme não é devidamente compreendido por parte dos espectadores (nem mesmo a crítica discute a fundo), que só o nota em filmes arrasa quarteirões (blockbusters), com grandes explosões e efeitos especiais. Em Onde os Fracos Não Têm Vez o som é usado com sutileza para realçar mais a tensão nas cenas e promover os grandes sustos. Fica evidente o dedinho Hitchcock.

Onde os Fracos Não Têm Vez é um longa supostamente simples, baseado no joguete gato e rato, que se destaca pela concepção de um antagonista intrigante e cruel. O espectador não se identifica com o bandido, e no filme não é diferente. Entretanto, há em todos uma pontinha de curiosidade pelo mal. Afinal, qual cinéfilo, em bom juízo mental, não se sente atraído pelo carisma, ainda que maléfico, de Michael Corleone, da Trilogia O Poderoso Chefão? E o cinema é isso, um local de experiência, para viver sonhos e ilusões. E apesar do longa explorar claramente quão horrível caminha a humanidade, é estranho perceber e assumir uma certa atração pelo assassino. Lá no fundo eu penso: se um dia eu pudesse ser um assassino, queria ser igual ao Anton Chigurh. A experiência cinematográfica possibilita aflorar sentimentos e sensações que muito vezes não sabemos que temos ou fazemos questão de esconder. E se um filme provoca isso, por mais horrendo que as vezes seja, é sinal que ele funciona plenamente.

[PS.: Infelizmente, algumas pessoas levam ao pé da letra esse sensacional processo de experimentação ilusória proporcionado pelo cinema e a estende ao mundo real. Cito o caso dos garotos do massacre de Columbine, que se vestiam com as roupas à lá Matrix na ocorrida tragédia, e o estudante de medicina que atirou nos espectadores durante uma sessão do filme Clube da Luta, no Brasil. Felizmente, o cinema acaba ao acender das luzes.]


Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men - 2007)
Direção: Ethan Coen e Joel Coen
Elenco: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Uma das necessidades básicas do mundo moderno, e capitalista, é o dinheiro. Todos nós já passamos por um aperto ali o acolá por conta do famigerado “dindin”. Alguns correm atrás e trabalham, outros vendem o próprio corpo e ainda há os que recorrem aos atos ilícitos para consegui-lo. Agora, você assaltaria a própria mãe? Essa é a pergunta que incomoda o espectador ao longo do excelente filme do Sidney Lumet (Um Dia de Cão, 12 Homens e Uma Sentença), Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto.

Andy (Philip Seymour Hoffman) é um executivo cuja carreira está desmoronando. Para contornar um erro na empresa, convence o irmão Hank (Ethan Hawke), um desajustado falido, a assaltar a joalheria dos pais. O plano parece fácil, pois eles conhecem bem o funcionamento do lugar. A ação não sai como planejada, e sua mãe é morta.

Diante do ótimo roteiro de Kelly Masterson, Lumet, com seus 86 anos, empresta seu vasto talento a esta interessante obra que desperta a discussão sobre os caminhos que a ganância capitalista vem levando o homem. Claro que é preciso considerar que tais sentimentos como cobiça e ganância fazem parte do homem desde tempos mais remotos. Matar os pais por causa de dinheiro, ou mesmo poder, não é algo assim tão novo. Entretanto, o longa explora com uma sensibilidade árida e um tanto surpreendente a relação entre o amor materno e necessidade financeira.

O maior mérito do filme está apoiado nas interpretações firmes de Hoffman e Hawke. Lá pelo meio do segundo ato, Albert Finney, que interpreta o pai, traz mais uma avalanche sentimentos, finalizando com um cena completamente sufocante, que satisfaz os anseios, mesmo os mais primitivos, do espectador. Lumet realiza o que sempre fez no cinema: conduz interpretações avassaladoras sendo discreto cinematograficamente. Porém o vovô Lumet [desculpe mestre], antenado nas modernidades e apoiado em um roteiro estruturalmente moderno, propõem um narrativa fragmentada, mas fugindo dos clichês já intrínsecos a ela. A edição realizada por Tom Swartwout, dá uma dinâmica ainda melhor a estória, que por si só já arrebataria o espectador. Já diz o velho preceito: Tão importante quanto a estória, é como ela é contada. Nesse quesito, Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, é um dos mais deliciosos filmes de 2007.

Se há algo errado no longa, é só uma breve insatisfação quanto a resolução da trama. Afinal, quem mata a mãe por dinheiro, a meu ver, tinha que ser morto com requintes de crueldade. Mas esta é um visão particular, embasada em preceitos latinos, fortemente carregados na importância matriarcal. Em outras palavras, torci demais para matar esses dois #%$*%^$(Sentimento este que só experimentei no final de Dogville)

Quisera eu à Deus que Sidney Lumet vivesse mais 86 anos. Para minha tristeza, infelizmente, os gênios precisam de um lugar reservado para serem venerados.
Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto é, novamente, mais uma obra prima na carreira monumental desse mito do cinema.


Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Before the Devil Knows You're Dead - 2007)
Direção: Sidney Lumet
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Indicados ao Oscar 2008

Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Foram divulgados os indicados ao Oscar 2008. Dentre as surpresas está a presença de Juno entre os indicados a melhor filme e a justa indicação a melhor ator de Tommy Lee Jones, por No Vale das Sombras. Dentre os furos está o esquecimento e descaso total por Zodíaco e O Caçador de Pipas. O Ano que meus pais saíram de férias, filme que representava o Brasil, infelizmente não foi indicado entre os melhores filmes de língua estrangeira.

Até o dia da festa, 24/02, farei um análise profunda dos indicados. Enquanto isso, confirma as críticas de alguns dos indicados.


Melhor filme

"Conduta de Risco"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"'
"Sangue Negro"
"Desejo e Reparação"
"Juno"

Melhor ator

George Clooney ("Conduta de Risco")
Daniel Day Lewis ("Sangue Negro")
Tommy Lee Jones ("No Vale das Sombras")
Viggo Mortensen ("Senhores do Crime")
Johnny Depp ("Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet")

Melhor ator coadjuvante

Casey Affleck ("O Assassinato do Jovem Jesse James pelo Covarde Robert Ford")
Javier Bardem ("Onde os Fracos Não Têm Vez")
Philip Seymour Hoffman ("Jogos do Poder")
Hal Holbrook ("Na Natureza Selvagem")
Tom Wilkinson ("Conduta de Risco")

Melhor atriz

Cate Blanchet ( "Elizabeth: A Era de Ouro")
Julie Christie ("Longe Dela")
Marion Cotillard ("Piaf - Um Hino ao Amor")
Laura Linney ("The Savages")
Ellen Page ("Juno")

Melhor atriz coadjuvante

Cate Blanchett ("I'm Not There)
Ruby Dee ("O Gângster")
Saoirse Ronan ("Desejo e Reparação")
Amy Ryan ("Gone Baby Gone")
Tilda Swinton ("Conduta de Risco")


Melhor filme de animação

"Ratatouille" (Brad Bird)
"Tá Dando Onda" (Ash Brannon and Chris Buck)
"Persépolis" (Marjane Satrapi and Vincent Paronnaud)

Melhor diretor

Tony Gilroy ("Conduta de Risco")
Jason Reitman ("Juno")
Julian Schnabel ("O Escafandro e a Borboleta")
Paul Thomas Anderson ("Sangue Negro")
Ethan e Joel Coen ("Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor direção de arte

"O Gângster"
"Desejo e Reparação"
"A Bússola de Ouro"
"Sweeney Todd - o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"
"Sangue Negro"

Melhor fotografia

"O Assassinato do Jovem Jesse James pelo Covarde Robert Ford"
"Desejo e Reparação"
"O Escafandro e a Borboleta"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Sangue Negro"

Melhor figurino

"Across the Universe"
"Desejo e Reparação"
"Elizabeth: A Era de Ouro"
"Piaf - um hino ao amor"
"Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"

Melhor documentário

"No End in Sight"
"Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience"
"SOS Saúde"
"Taxi to the Dark Side"
"War/dance"

Melhor documentário de curta-metragem

"Freeheld"
"La Corona"
"Salim Baba"
"Sari's Mother"

Melhor edição

"O Ultimato Bourne"
"O Escafandro e a Borboleta"
"Na Natureza Selvagem"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Sangue Negro"

Melhor filme estrangeiro

"The Counterfeiters" (Stefan Ruzowitzky - Áustria)
"Beaufort" (Joseph Cedar - Israel)
"Katyn" (Andrzej Wajda - Polônia)
"12" (Nikita Mikhalkov - Rússia)
"Mongol" (Sergei Bodrov - Cazaquistão)

Melhor maquiagem

"Piaf - Um Hino ao Amor"
"Norbit"
"Piratas do Caribe - No Fim do Mundo"

Melhor trilha sonora original

"Desejo e Reparação" (Dario Marianeli)
"O Caçador de Pipas" (Alberto Iglesias)
"Conduta de Risco" (James Newton Howard)
"Ratatouille" (Michael Giacchino)
"3:10 to Yuma" (Marco Beltrami)

Melhor canção original

"Falling Slowly" (Glen Hansard e Marketa Irglova - "Once")
"Happy Working Song" (Alen Menken e Stephen Schwartz - "Encantada")
"Raise It Up" (Autor a ser determinado - "August Rush")
"So Close" (Alan Menken e Stephen Schwartz - "Encantada")
"That's How You Know" (Alan Menken e Stephen Schwartz - "Encantada")

Melhor curta-metragem

"At Night"
"Il Supplente"
"Le Mozart des Pickpockets"
"Tanghi Argentini"
"The Tonto Woman"

Melhor animação de curta-metragem

"I Met the Walrus"
"Madame Tutli-Putli"
"Meme Lês Pigeons Vont au Paradis"
"My Love"
"Peter and the Wolf"

Melhor edição de som

"O Ultimato Bourne"
"Ratatouille"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Sangue Negro"
"Transformers"

Melhor mixagem de som

"O Ultimato Bourne"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Ratatouille"
"3:10 to Yuma"
"Transformers"

Melhor efeito especial

"A Bússola de Ouro"
"Piratas do Caribe - No Fim do Mundo"
"Transformers"

Melho roteiro adaptado

"O Escafandro e a Borboleta"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Desejo e Reparação"
"Longe Dela"
"Sangue Negro"

Melhor roteiro original

"Juno"
"Lars and the Real Girl"
"Conduta de Risco*
"Ratatouille"
"The Savages"
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Senhores do Crime

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
O cinema volta e meia apresenta um longa envolvendo mafiosos. Após o sucesso e a exuberância da Trilogia O Poderoso Chefão, a temática tornou-se exaustivamente abordada, salvando-se poucos como Os Bons Companheiros. Como os gênios Coppola e Scorsese andam meio tristes [Os Infiltrados não me enganou], Senhores do Crime, novo filme de David Cronenberg, dá uma chacoalhada no gênero e com uma percepção sensível e atual destaca umas das organizações criminosas que mais se expande pelo mundo - a Máfia Russa.

Cronenberg que vem do excepcional Marcas da Violência, manteve a sensibilidade de escolher outra estória simples e pungente, e repetir a parceria com Viggo Mortensen. Resultado: um filme simples, forte, importante para o contexto globalizado pós-socialismo soviético e a melhor atuação da carreira Viggo Mortensen [digna de prêmios]. Os mais críticos podem relutar que o roteiro, de Steven Knight, não apresenta nada demais e que Viggo apenas interpreta bem o sotaque. Entretanto, pondero que o filme, um tanto propositalmente, não explora profundamente os alicerces das organizações criminosas provenientes do leste europeu, fato de serem tão recentes. Não se sabe muito bem o aconteceu com este povo pós muro de Berlim, ícone do fim do socialismo Europeu, mas sabe-se que eles enfrentaram dificuldades e sobreviveram. Grande parte, ao se adaptar ao mundo capitalista, optou pelo crime. Afinal, a AK-47, arma facilmente encontrada em qualquer favela carioca é de origem Russa, também conhecida como Kaleshnikov. [cinema é cultura – aprendi isso no filme O Senhor das Armas]

Cronenberg realiza um filme eficiente, que entrete o espectador mais simples e desperta à discussão o mais experiente. A trama explora bem superficialmente o tráfico de mulheres e a indústria do sexo. Entretanto, por debaixo da camadas da trama, percebe-se que o crime organizado russo aproveita da fraqueza do seu povo, mulheres ávidas por uma vida melhor em um país com maiores oportunidades, e constroem a inescrupulosa indústria de escravas do sexo. Basta uma navegada pela internet para provar a real existência disto. Negócios ilícitos como este e extremamente lucrativos constituem os atuais impérios mafiosos russos, que gradualmente se expandem pelo mundo. A trama que se passa em Londres, propositalmente, faz uma citação elegantíssima ao time de futebol Chelsea, que após ser adquirido por um magnata russo, Roman Abramovich, se tornou uma das equipes mais famosas do mundo. Há quem diga que o clube de futebol é uma fachada para lavagem de dinheiro. Aqui no Brasil o dinheiro russo, e igualmente duvidoso de Boris Beresovsky, supostamente financiou o investimentos do Grupo MSI no Corinthians.

Embora a trama tenha todos esse saboroso universo como base, o ponto fraco do filme é justamente a atuação da protagonista, Anna (Naomi Watts). Viggo Mortensen (Nikolai), Vincent Cassel (Kirill) e Armin Mueller-Stahl (Semyon) esbanjam talento. A trilha sonora de Howard Shore, como de costume, invade os tímpanos e enche as cenas na medida exata. E a loirinha continua com aquela cara lânguida e sem sal desde os tempo de O Chamado. Basta conferir a cena final do longa, onde a química necessária não se realiza.

Cronenberg é um diretor discreto, que não gosta de se mostrar com firulas de câmera. Já o considero entre os melhores da atualidade. A singeleza do filme ao apresentar a tramóia finalizada com a seqüência da sauna e a real finalidade de Nikolai no contexto da trama são sensacionais. Fica agora a expectativa para o próximo filme do diretor, que pelo o andar da carruagem, brevemente levará a cobiçada estátua dourada para casa.


Senhores do Crime (Eastern Promises - 2007)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Naomi Watts, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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Jornalista com formação em história, linguagem e crítica cinematográfica. Assessor de Comunicação da Prefeitura de Pedro Leopoldo/MG.
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