Oscar 2012


A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood entrega no dia 24/2 o prêmio mais relevante da indústria do cinema, o Oscar. Quem leva a estatueta a estatueta dourada para casa tem pouca relevância para os cinéfilos. O que realmente importa é a lista dos filmes. Quem curte cinema e quer conhecer um pouquinho dos melhores filmes do ano tem por obrigação ver uma grande parte dos filmes indicados. Particularmente gosto de ver todos os filmes indicados a melhor roteiro e roteiro adaptado. Apesar de pouco comentado, o excelente Margin Call - O Dia Antes do Fim está na lista. O bacana do Oscar é olhar e analisar o que o mercado americano enxerga como bons filmes. Você os assiste e faz a sua avaliação. Sempre vão faltar filmes entre os indicados. Quando você começa apontar essas falhas nas indicações é sinal que seu apuro cinematográfico está em um bom nível. Vou atualizando a lista dos links assim que conferir os filmes.

Melhor filme
Os Descendentes
A Árvore da Vida
Histórias Cruzadas
A Invenção de Hugo Cabret
O Homem Que Mudou o Jogo
Cavalo de Guerra
O Artista
Meia-Noite em Paris
Tão Perto e Tão Forte

Melhor ator
George Clooney - Os Descendentes
Brad Pitt - O Homem Que Mudou o Jogo
Jean Dujardin - O Artista
Demián Bichir - A Better Life
Gary Oldman - O Espião que Sabia Demais

Melhor atriz
Glenn Close - Albert Nobbs
Viola Davis - Histórias Cruzadas
Rooney Mara - Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Meryl Streep - A Dama de Ferro
Michelle Williams - Sete Dias com Marilyn

Melhor ator coadjuvante
Kenneth Branagh -Sete Dias com Marilyn
Nick Nolte - Guerreiro
Max Von Sidow - Tão Perto e Tão Forte
Jonah Hill - O Homem Que Mudou o Jogo
Christopher Plummer - Toda Forma de Amor

Melhor atriz coadjuvante
Bérénice Bejo - O Artista
Jessica Chastain - Histórias Cruzadas
Janet McTeer - Albert Nobbs
Melissa McCarthy - Missão Madrinha de Casamento
Octavia Spencer - Histórias Cruzadas

Melhor diretor
Woody Allen - Meia-Noite em Paris
Terrence Malick - A Árvore da Vida
Alexander Payne - Os Descendentes
Michel Hazanivicous - O Artista
Martin Scorsese - A Invenção de Hugo Cabret

Melhor roteiro adaptado
A Invenção de Hugo Cabret
Tudo pelo Poder
Os Descendentes
O Espião que Sabia Demais
O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor roteiro original
Meia-Noite em Paris
O Artista
Margin Call - O Dia Antes do Fim
Missão Madrinha de Casamento
A Separação

Melhor filme em lingua estrangeira
A Separação (Irã)
Bullhead (Bélgica)
Monsieur Lazhar (Canadá)
Footnote (Israel)
In Darkness (Polônia)

Melhor longa animado
Gato de Botas
Kung Fu Panda 2
Rango
Um Gato em Paris
Chico & Rita

Melhor trilha sonora original
As Aventuras de Tintim
O Artista
O Espião que Sabia Demais
A Invenção de Hugo Cabret
Cavalo de Guerra

Melhor canção original
"Man or Muppet" - Os Muppets
"Real in Rio" - Rio

Melhores efeitos visuais
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Gigantes de Aço
Planeta dos Macacos - A Origem
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor maquiagem
Albert Nobbs
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
A Dama de Ferro

Melhor fotografia
Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
A Árvore da Vida
Cavalo de Guerra

Melhor figurino
Anônimo
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
Jane Eyre
W.E. - O Romance do Século

Melhor direção de arte
O Artista
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Cavalo de Guerra

Melhor documentário
Hell and Back Again
If a Tree Falls
Paradise Lost 3: Purgatory
Pina
Undefeated

Melhor documentário de curta-metragem
God is the Bigger Elvis
The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement
Incident in New Baghdad
Saving Face
The Tsunami and the Cherry
Blossom

Melhor montagem
Os Descendentes
O Artista
Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
O Homem Que Mudou o Jogo
A Invenção de Hugo Cabret

Melhor curta
Pentecost
Raju
The Shore
Time Freak
Tuba Atlantic

Melhor curta animado
Dimanche
The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore
La Luna
A Morning Stroll
Wild Life

Melhor edição de som
Drive
Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Cavalo de Guerra
A Invenção de Hugo Cabret
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor mixagem de som
Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Cavalo de Guerra
A Invenção de Hugo Cabret
Transformers: O Lado Oculto da Lua
O Homem Que Mudou o Jogo


Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

É uma pena que o escritor sueco Stieg Larsson não tenha vivido para acompanhar o sucesso de sua obra, que agora chega aos cinemas, novamente, mas em versão Hollywoodiana. Li o livro, assisti a adaptação sueca para o cinema da trilogia e afirmo, o mérito da versão realizada por David Fincher é ajustar levemente algumas nuances da história. O resultado é um filme eficiente e satisfatório, mas ainda assim fica um gostinho meio estranho ao final.

Diferente a adaptação sueca, em que a presença  Lisbeth Salander rouba o filme, o roteiro da versão americana de Os Homens que Não Amavam as Mulheres procura balancear melhor a participação do jornalista Mikael Blomkvist, interpretado por Daniel Craig, na investigação. Fincher acerta nesse balanço pois sabe que a protagonista da história é Lisbeth Salander, cuja participação será ainda maior nos outros filmes da série. É inevitável a comparação da Salander da atriz Rooney Mara e da versão sueca, da avassaladora Noomi Rapace. No remake americano a Salander tem uma faceta de ternura, mostrando a carência de uma menina que no fundo só queria ser normal. Rooney Mara apresenta uma atuação eficiente e chama atenção pela fragilidade física do seu corpo mirrado, mas que pode ser altamente perigosa se acuada. Ela se mostra como um cachorro de rua que não é notado pelos que passam na rua, mas que pode ser hostil se for atacada e também dócil com quem a trata bem. 

O problema do filme reside na apresentação dos quatro enredos da história: 1 - a disputa judicial de Blomkvist e Wennerström; 2 - a investigação do desaparecimento de Harriet Vanger; 3 - o assassinato das mulheres; e 4 - a história de Lisbeth Salander. Fincher consegue gerir com talento essa equação, mas após a resolução do desaparecimento e os assassinatos, fica difícil voltar para o primeiro enredo e ainda ter mais de 15 minutos de filme. A estrutura narrativa do livro nem sempre funciona bem na telona. Perceba que em função disso o final do longa acaba um tanto arrastado e opaco. O ato final soa como uma demonstração de como Salander é inteligente. Contudo, esse é um ponto destoante inevitável da narrativa que terá uma importância na trama futura da trilogia. Tanto no livro quanto nos dois longas adaptados, esse final sempre me pareceu um tanto murcho.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres é um bom filme de suspense e investigação, mas que está longe de obras consagradas do gênero como Seven - Os Sete Pecados Capitais, dirigido pelo próprio Fincher. No fundo a Trilogia Millennium se sustenta por conta de uma das personagens mais exóticas e interessantes dos últimos anos, Lisbeth Salander. Sorte da jovem atriz Rooney Mara que já recebera indicação ao Oscar pela atuação no nesse longa e terá uma boa oportunidade nos próximos filmes para nos mostrar seu talento.


Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo - 2011)
Direção: David Fincher
http://www.imdb.com/title/tt1568346/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

O Espião Que Sabia Demais

Filmes de espionagem são sinônimo de filmes de ação - James Bond, Missão Impossível, Trilogia Bourne. Em O Espião Que Sabia Demais tem-se uma perspectiva um tanto diferente da espionagem pois, espião é inteligente e se expõe pouco. Ou melhor, espião nem é notado. Melhor ainda, aquele senhor que acaba de passar por você, ele é um espião.

Dirigido de maneira invejável por Tomas Alfredson (Deixe Ela Entra), o longa é um milimétrico estudo de personagens cujo tom da narrativa é lento, o roteiro é complexo e as atuações e fotografia demonstram o clima frio e opaco da espionagem durante a Guerra Fria. Gary Oldman (Smiley) interpreta um espião aposentado que investiga a possibilidade de um traidor no centro de espionagem britânica. Comedido, detalhista e sempre sério, Oldman realiza uma interpretação estupenda, que lhe rendeu com justiça indicação ao Oscar.

O Espião Que Sabia Demais é um filme difícil, pois as peças do enredo são apresentadas vagarosamente, cada uma carregada de muita desconfiança e dor. Perceba na feições dos espiões como cada dia parece um parto e raramente vislumbramos um sorriso, ainda que seja de satisfação. Aquele era um mundo hostil em que não se podia confiar em ninguém, nem mesmo no companheiro.

O diretor sueco Alfredson chega ao mainstream do cinema, após o excelente horror Deixe Ela Entra, mostrando muita maturidade e construindo um filme coeso, inteligente e esteticamente arrebatador. A frieza visual da fotografia e das atuações só refletem o estado de espírito das personagens. Mesmo no final, em que Smiley descobre o traidor, sendo esse também amante de sua esposa, ele não reage. Apenas o sentencia com o silêncio. Um filme incomum, audacioso e que mostra um novo diretor que é preciso acompanhá-lo de perto.


O Espião Que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy - 2011)
Direção: Tomas Alfredson
http://www.imdb.com/title/tt1340800/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

As Aventuras de Tintim

O que aconteceria se o "Mestre dos Magos Spielberg" começasse a brincar com o que há de melhor no cinema atual - as animações? Certamente elevaria o gênero para alguns degraus acima, apostaria esse cinéfilo. As Aventuras de Tintim é a concretização de um sonho do diretor, de levar as telas as sensacionais histórias do cartunista belga Hergé.

Vamos a receita: junte Spielberg, Peter Jackson e seus competentes profissionais da Weta, o mestre da atuação em captura de movimentos Andy Serkis, adicione um bom roteiro e um protagonista que tem tudo para render uma nova franquia de filmes. Não esqueça de misturar bem e leve ao forno. As Aventuras de Tintim nem tinha chegado as telas do mundo e já estava rodeado de curiosidade pela junção desses dois renomados diretores, Spielberg e Jackson. O resultado é um filme eficiente, divertido e que, por vezes, possui cenas espetaculares, afinal, a nau é comandada por um velho e astuto marujo.

O longa tem início com uma linda homenagem a Hergé e seus personagens, segue em um clima noir e explode em angustiantes sequências de ação. O ritmo alucinante do filme, infelizmente, não permite apresentar com profundidade os personagens secundários, restando apenas tempo para Tintim, Milu e o Capitão Haddock. Equivoco que pode ser compensado nos próximos filmes. A excelência da computação gráfica dos profissionais da Weta fica ainda mais exuberante sendo conduzida bela batuta do experiente Spielberg. Preste atenção nas transições entre cenas, em que a possibilidades da animação transformam  dunas do deserto em ondas do mar. Outro momento marcante é a sequência de transições de cenas em que Capitão Haddacok conta a fatídica batalha de seu ancestral contra um ataque de navio pirata.

As Aventuras de Tintim reside no terreno em que ninguém no mundo é melhor que Spielberg - entreter os espectadores. Em suma, Tintim é o Indiana Jones. Curioso é que o herói arqueólogo de Lucas e Spielberg foi claramente influenciado pelas a HQs de Tintim. Meu único pesar foi o uso de armas de fogo pelas personagens e até uma cena de morte, o que nem sempre é aconselhável para os filmes cujo público tem mais de 70% de crianças. O início noir do filme deu uma escorregada só nisso. Mas tão logo segue o roteiro, o esperto cão Milu dá o alívio cômico e as risadas voltam a ecoar na sala do cinema.

Certamente Tintim, Milu e Capitão Haddock voltarão ao cinema e um público ávido vai acompanhá-los. Resta saber se após o sucesso da animação, Mister Indiana Jones terá alguma chance de voltar às telas depois do chatíssimo último episódio. Uma ideia melhor, quem sabe eles se encontram dentro da animação?


As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin - 2011)
Direção: Steven Spielber
http://www.imdb.com/title/tt0983193/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com -

Um Dia

Baseado no best-seller de David Nichols, Um Dia é uma emocionante e triste história de amor. Dois jovens recém formados tem uma rápida relação amorosa e a partir desse dia, 15 de julho, o roteiro vai apresentando ano a ano, durante um dia, a evolução dessa amizade, dos encontros e desencontros desse casal e que cismam em não concretizar esse amor.

Em certos momentos a narrativa do filme me remeteu ao clássico Antes do Amanhecer, pela sua leveza cômica e as ótimas performances do casal interpretado por Anne Hathaway (Emma) e Jim Sturgess(Dexter) . Os espectadores torcem ao longo do filme para que o imaturo Dexter perceba o tamanho do amor de Emma por ele. Os anos vão passando na narrativa e os fracassos sociais de Dexter vão mostrando a beleza de Emma. As mulheres devem adorar o filme, pois apresenta claramente como os homens são um tanto lesados e lentos para perceberem o óbvio.

Uma constatação que o Um Dia apresenta é como Hathaway é linda, mesmo que sua personagem use algumas roupas de gosto bastante duvidoso. Se no começo ela apresenta-se como uma nerd desengonçada, já no fim, ela exibe toda sua exuberância tendo Paris como pano de fundo. O espectador é guiado pelas ações de Emma, mas o filme não é sobre ela. O terceiro ato do longa segue em uma direção reflexiva, o que pode afastar os espectadores que desejam apenas um filme romântico comum. É justamente nessa virada que Um Dia se destaca como um dos melhores filmes de romance dos últimos anos. Assim como em Apenas Uma Vez, as relações amorosas possuem conclusões nem sempre tão felizes, mas isso não quer dizer que não foi romântico.

É difícil não conter as lágrimas, o que alguns podem encarar como melodrama barato. Os cinéfilos mais escolados irão antecipar alguns fatos do roteiro, o que pode soar clichê. Contudo, na vida, algumas coisas são realmente clichês. Fazer o quê? Prova que o longa é maduro e inteligente está na cena da conversa de Dexter com o pai sobre o que fazer no futuro. Após os créditos percebemos que Um Dia é um drama, que usa como enredo um belo romance refletindo que nem sempre é fácil seguir em frente. Mas como diria Freddy Mercury, "inside my heart is breaking, my make-up may be flaking but my smile still stays on". Portanto, a vida é assim - The Show Must Go On.

Ps.: A trilha sonora e o tema principal composto por Rachel Portman é lindíssimo.


Um Dia (One Day - 2011)
Direção: Lone Scherfig
http://www.imdb.com/title/tt1563738/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Premonição 5

Franquias sempre podem gerar um bom dinheiro. Tanto nos negócios quanto no cinema. Contudo, o gênero de horror as vezes abusa com filmes que chegam a cinco continuações e até sete, como o famigerado Jogos Mortais -  O final. A série de filmes Premonição chega ao quinto episódio de forma sóbria e com um nível de horror médio. A fórmula é a mesma, não há nada muito diferente do que fooi apresentados nos outros longas. Basicamente, quem assiste apenas se deleita com a angustia das personagens que passam o filme todo fugindo da morte. No final, todos já sabem, menos as personagens, eles vão morrer mesmo. O que nos deixa aguardando é saber como.

A sequência inicial da série Premonição é sempre bem elaborada, gerando um bom frisson no espectador. Vale nota que nesse episódio os efeitos especiais dão uma leve escorregada no que tange a qualidade. O que diferencia esse capítulo dos demais da franquia é a possibilidade que as personagens façam uma permuta com a Morte. Matando alguém, a dívida com ela poderia ser quitada. Essa interessante proposta do roteiro, infelizmente, não apresenta resultados muito satisfatórios. Essa ideia poderia render uma reflexão ética mais profunda, mas os produtores querem apenas fazer mais um filminho de terror. Uma pena. O legal mesmo é a presença de Tony Todd, com seu semblante assustador que remete automaticamente à todos que viram O Mistério de Candyman.

Fadado a ganhar suas duas estrelinhas, Premonição 5 surpreende ao final conectando a história ao primeiro filme da série, tirando assim um bom sorriso no rosto do espectador. É um diversão bobinha, bacana, que só alcança algo maior ao seu final. Se os produtores finalizarem a série de filmes nesse momento, esse quinto capítulo fecha muito bem a franquia. O problema é que com mais filmes, há a possibilidade de mais dinheiro. Cinema é negócio, não é? Por quê ganhar apenas com um, se posso ter vinte? Uma pena, novamente.


Premonição 5 (Final Destination 5 - 2011)
Direção: Steven Quale
http://www.imdb.com/title/tt1622979/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

O Homem Que Mudou o Jogo

Já há alguns anos o esporte perdeu uma boa parcela do seu aspecto romântico tornando-se um negócio muito lucrativo. Como sempre, os americanos enxergaram antes esse potencial mercadológico, sobretudo nas modalidades que dominam. Contudo, isso fomentou a criação do grande abismo que divide os milionários e expressivos times grandes, dos esforçados e fracos times pequenos. O beisebol retratado em O Homem Que Mudou o Jogo é apenas o cenário de algo muito mais complexo que vem ocorrendo atualmente no mundo dos esportes.

Billy (Brad Pitt), em uma excelente atuação, é o gerente do modesto time Oakland Athletics que apesar de todo esforço, sempre tropeça nas finais, sendo eliminado. Por mais que a equipe revele bons jogadores, não há como mantê-los, afinal, os grandes times, com  maiores possibilidades econômicas, acabam os contratando. Perceba como essa realidade é idêntica a do futebol. Billy percebe que a fórmula de gestão está errada. Esse é um círculo vicioso que sempre favorece quem tem mais dinheiro. É preciso repensar o modelo. Diante dessa reflexão o gerente propõe uma ousada  alteração, usando estatística e matemática para tentar virar esse jogo.

Curioso como filmes relacionados a esportes propiciam boas reflexões não só sobre a modalidade esportiva, mas também sobre a vida. Bom exemplo recente foi Invictus, que através do rugby mostrou uma história de superação e do papel social que o esporte tem sobre as pessoas. Em O Homem Que Mudou o Jogo, a vida se mostra mais dura, apesar de todo empenho. O livro da nossa sociedade é escrita com base nos relatos e ações do vencedores. Assim como no futebol, no beisebol, o que importa é ser campeão. Uma boa campanha, com jogadores modestos e baratos não consolam a necessidade de vencer do torcedor. Bater o recorde, vencer 20 jogos consecutivos, nada adianta, se perder na hora H, em uma final.

O Homem Que Mudou o Jogo é um filme obrigatório para todos que apreciam o esporte e desejam refletir melhor o que se passa hoje no futebol brasileiro. Você não precisar saber o que é um Home Run e a importância da primeira base na beisebol para compreender o que o longa vem nos dizer. Vivemos no mundo dos resultados, em que o contexto tem sido pouco avaliado. A beleza da vida, seja ela expressa através do esporte, está em vivenciar o momento: ir ao estádio, gritar pelo seu time, comer um cachorro quente (tropeiro se for no Mineirão), sorrir e chorar. Se o time for campeão, excelente. Senão, ano que vem tem mais. Não é isso que dizia o Barão de Coubertin ?


O Homem Que Mudou o Jogo (Moneyball - 2011)
Direção: Bennett Miller
http://www.imdb.com/title/tt1210166/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Terror na Água 3D

Uma garota loira, um tanto sem bunda, nada vagarosamente em uma lagoa. Seu namorado tira a parte superior do biquíni da garota e o joga  longe. Ele se afasta rindo enquanto ela, brava e sem mostrar os seios, nada para recuperar a vestimenta. É claro que o tubarão vai pegá-la, trucidá-la e a água vai ficar tingida de sangue. Isso tudo realmente acontece, mas o que me deixou realmente instigado é: como é possível um tubarão em uma lagoa e por quê numa cena tão ruim a tal garota sem bunda, ao menos, não mostrou os seios?

Convenhamos, levaria mais de dez parágrafos para tentar explicar por quê continuo assistindo esses filmes B mequetrefes. No fundo é uma necessidade experimental de tentar achar uma agulha no palheiro. Depois do divertido e sangrento Piranha, de 2010, resolvi dar oportunidade a Terror na Água 3D. O longa não aterroriza, não diverte e não é tão ruim que propicie algumas gargalhadas. Agora a explicação para presença de diversos tubarões em uma lagoa é de longe o roteiro mais surreal de 2011.

Curioso é que filmes desse tipo são obrigatórios aos cinéfilos. Servem como cobaias de pesquisa. Veja, analise os equívocos, perceba as junções de filmes anteriores formando um enredo Frankenstein. Ao fim, pensei - o saudades do Jason. Era tão mais simples matar esses jovens com algumas machadadas. Os tempos agora são outros. Estamos na era da modernidade, na era 3D. Deve ser mesmo assustador um tubarão saindo da tela e pulando no espectador como se fosse um golfinho. Ps.: o cachorro é a reencarnação do Mestre Yoda. Ps2.: A tradução literal do filme deveria ser Noite dos Tubarões, pois fez-se necessário o visual noturno para esconder a pobreza dos efeitos visuais.


Terror na Água 3D (Shark Night 3D - 2011)
Direção: David R. Ellis
http://www.imdb.com/title/tt1633356/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-


Um lugar solitário para morrer

Um grupo de alpinistas encontra uma criança presa em uma pequena câmara enterrada no meio da floresta. Apenas um cano, utilizado como duto para passagem do ar, serve como contato da menina com o resto do mundo. Liberta, os alpinista são perseguidos pelos sequestradores, que a querem de volta.

O longa começa arrebatador mostrando o quão perigoso e desafiante é escalar uma montanha. O belo cartão de visita fica ainda mais saboroso ao perceber algumas leves semelhanças com o sensacional Abismo do Medo, explorando as relações das personagens e os riscos em que a equipe se propõe. Rapidamente a menina sequestrada é liberta e o filme passa a impor um ritmo angustiante. Na melhor e mais assustadora cena de Um lugar solitário para morrer, o roteiro esclarece ao espectador que há mais gente naquelas montanhas e que eles são perigosos. É um susto daqueles de abrir a boca e dizer: Não pode ser...

O longa passa a funcionar no esquema gato caçando o rato. O problema é que as montanhas acabam ficando em segundo plano, não sendo utilizadas como desafio, tanto para os perseguidores quanto aos perseguidos, e algo produtivo para narrativa. Se em Abismo do Medo sair da caverna é a meta fundamental, no filme as montanhas não chegam imprimir o mesmo receio. Descer uma montanha tendo todo o tempo e analisando todas as questões de segurança é bem diferente que fugindo de sequestradores armados. Faltou isso.

No ato final, a coisa se perde de vez, quando o enredo conclui a trama fora da montanha.  Poxa, se é um filme sobre escalada, com alpinistas, tem que ser contextualizado, se possível, dentro do cenário deles, as montanhas. E, se a produção chama-se Um lugar solitário para morrer, a protagonista devia então morrer. O final ainda mistura questões políticas da antiga Iugoslávia, que não acrescentam  nada a trama. No fundo, dá vontade de deixar os realizadores morrerem numa montanha só para ver se aprendem.


Um lugar solitário para morrer (A Lonely Place to Die - 2011)
Direção: Julian Gilbey
http://www.imdb.com/title/tt1422136/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com 
-

Contágio

O Fim do Mundo por meio de uma grande epidemia é um tema recorrente no cinema. Curiosamente, o gênero de horror tem excelentes obras a respeito, em que se destacam os dois filmes da bilogia Extermínio. Já as produções dramáticas não tiveram tanto êxito, com raras exceções como Epidemia, em 1995. Contágio, é uma tentativa interessante de explorar como as pessoas e o governo reagiriam diante de uma doença letal e desconhecida que devasta o planeta em menos de um ano. Com um elenco recheado de estrelas, Soderbergh realiza um filme eficiente que cumpre sua meta, chegando onde pretende. Contudo, fica aquela pergunta: Se isso fosse uma série de TV, poderia render muito mais.

Os 106 minutos do longa parecem poucos para explorar toda a devastação emocional que a epidemia gera nas personagens. O drama vivido Mitch Emhoff (Matt Damon) e sua filha, carecia de mais tempo. Uma ferida tão grande na vida dessas pessoas, demora a cicatrizar. O roteiro é hábil ao explicar toda a história ao redor do vírus, sua origem, o contágio e a busca pela cura, e ainda explorar o impacto disso nas diversas personagens. Um trabalho árduo, mas que deixa seus pequenos furos. A resposnável da Organização Mundial de Saúde, interpretada por Marion Cotillard, tem apenas a função de trazer ao roteiro um explicação para origem do vírus, que aliás, não é ela quem o descobre. Portanto, a personagem não tem uma grande função narrativa para a obra. Analisando mais de perto, esse pequenas arrestas ocorrem também nos outros personagens. Faltou tempo para explorar as outras camadas, sobretudo, como as pessoas reagem diante da escassez de comida e água, e amedrontadas com a possibilidade de contágio a partir do contato humano.

Soderbergh é um diretor tarimbado e conduziu Contágio com a competência que lhe é habitual. A questão que fica é:  Como definir o tamanho da história que se quer contar? Tente imaginar a Trilogia O Poderoso Chefão condensado em apenas um filme? O público merecia um arco narrativo maior, o que talvez surtir-se mais efeito o impacto da mensagem:  o ser humano é espécie muito frágil.


Contágio(Contagion - 2011)
Direção: Steven Soderbergh
http://www.imdb.com/title/tt1598778/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Tudo Pelo Poder

No capítulo 18 de O Príncipe,  Maquiavel argumenta que não é necessário, a um príncipe [leia-se atualmente como governante], possuir todas as qualidades, mas é preciso parecer ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso já que às vezes é necessário agir em contrário a essas virtudes, porém é necessário que esteja disposto a modelar-se de acordo com o tempo e a necessidade. Tudo Pelo Poder, novo longa dirigido por George Clooney ilustra que apesar do passar dos anos, a política é basicamente a mesma que fora descrita no século XIV, ou seja: contrate uma boa equipe de assessoria, modele que tipo de político/príncipe você deseja ser e o povo ao engolir esse placebo sentindo-se revigorado e curado.

O longa traça a dura jornada final nas prévias para decidir quem será o candidato do Partido Democrata a concorrer a presidência dos Estados Unidos. Poder, imagem, imprensa e alianças políticas se misturam em um roteiro bem balanceado, que deixa um pouco de lado a complexidade do processo eleitoral americano e foca nas relações entre as personagens e as consequências de suas escolhas. É um filme que reflete sobre a política mostrando que na política o que interessa é a lógica eleitoreira.

Clooney já colhera bons frutos passeando nos enlaces entre poder e mídia, no exuberante Boa Noite e Boa Sorte,  e nesse filme aprofunda um pouco mais sua percepção sobre a atual conjuntura política americana. Se no longa anterior a mídia tem um papel ativo criticando a caça as bruxas do Macartismo, nesse a imprensa tem um papel fundamental para a construção da imagem política, mas que é facilmente manipulada como uma marionete. Perceba que a jornalista interpretada por Marisa Tomei tem parcas aparições e quando surge em tela é para questionar alguma pista plantada pelo candidato opositor. O assessor interpretado por Ryan Gosling tem entre seus maiores predicados a facilidade de lidar e direcionar os repórteres para os assuntos que sejam de seu interesse.

Tudo Pelo Poder  tem aquela assinatura temporal, mostrando que esse assunto reflete a atualidade, ao ironizaa ao atual Presidente Obama, com os famosos cartazes estilizados "Yes, We Can" e, sobra até para Bill Clinton. O longa não mostra nada que um bom leitor de assuntos políticos não saiba, mas ao menos nos intriga ao perceber que a mesma fórmula maquiavélica vem surtindo resultado a tantos anos, seja na América, na Europa e no Brasil. Eles vão votar no que você prometer ser. Se você será isso após eleito, aí é outra história. Quem sabe outro filme?


Tudo Pelo Poder (The Ides of March - 2011)
Direção: George Clooney
http://www.imdb.com/title/tt1124035/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Eu Queria Ter a Sua Vida

Você é casado, tem uma esposa adorável, três filhos, um trabalho desgastante, mas que compensa financeiramente. Apesar do carro novo, da ótima casa e do status, você morre de inveja daquele amigo de infância solteiro, irresponsável e que transa com uma mulher diferente por semana. Convenhamos, tem dias que dá vontade de trocar. Essa é a premissa Eu Queria Ter a Sua Vida, que usa pela enésima vez o conceito de personalidades trocadas em corpos diferentes. Apesar de clichê, até que funciona bem e garante ótimas gargalhadas.

Dirigido por David Dobkin, que dirigiu uma das comédias mais assistidas dos últimos anos, Penetras bons de Bico, o filme já garante o espectador na cena inicial com a fatídica cena da troca de fraldas. Dobkin acena para o espectador dizendo: fique conosco e assista, você vai ser divertir. Infelizmente, não chega ter o primor cômico de Penetras..., mas é um bem realizado entretenimento. Aos brasileiros pode soar meio deja vu, afinal, a trama de troca de personalidades vai nos lembrar Se Eu Fosse Você. A dupla Jason BatemanRyan Reynolds funcionam bem, sobretudo Reynolds, que se sai melhor como galã cômico do que super-herói com anel.

Eu Queria Ter a Sua Vida não traz nada de novo, mesmo a lição de moral, mas proporcionas boas risadas. Ideal para assistir com pipocas, em final de semana chuvoso. Agora só não entendi uma coisa: melhores amigos raspam os testículos uns dos outros? Estranho não?


Eu Queria Ter a Sua Vida (The Change-Up - 2011)
Direção: David Dobkin
Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

O Idiota do Nosso Irmão

Como diria os Titãs: Família! Família! Almoça junto todo dia, nunca perde essa mania... Alguns podem até presunçosamente achar que suas famílias são melhores ou mesmo piores, mas no fundo, possuem uma coisa em comum - problemas? Não, tem sempre um idiota. Paul Rudd empresta seu talento nessa deliciosa comédia de costumes em que um sujeito dócil, meio hippie e que ama a todos, sobretudo cachorros, pode ser equivocadamente mal interpretado pelo mundo e seus familiares. Afinal, desde que quando tentar ser feliz é inciativa idiota?

Com o suporte de um excelente elenco, em que se ressalta as irmãs Natalie (Zooey Deschanel), Miranda (Elizabeth Banks) e Liz (Emily Mortimer), Paul Rudd parece usar O Idiota do Nosso Irmão como um manifesto, tipo: Olhem aqui, eu sou um grande ator e um ótimo comediante, por que insistem ignorando-me? Creio que não é isso que Rudd queira, mas é isso que passa pela minha cabeça. Está passando da hora de reconhecer o trabalho desse sujeito. Que seja uma indicação no Globo de Ouro. Protesto feito, voltemos ao filme.

Ned (Rudd) é um daqueles membros desajustados da família, que na visão de todos, parece viver no mundo da Lua. Ele é um ser simples, que pressionado, confidencia um segredo, sem mesmo perceber que isso acaba se tornando uma fofoca. O que enxergamos como idiotas, as vezes é apenas simplicidade. A cena inicial mostra isso claramente, em que ele vende maconha para o Policial. Perceba que ao longo do filme, todas as pessoas ditas normais, são um tanto chatas e intoleráveis. Ned é sempre o cara mais bacana, gentil e cativante do lugar, o que é bem exemplificado na sua relação como tio e ao conseguir informações com a fonte da matéria jornalística produzida pela irmã.

Com uma conclusão satisfatória e uma boa lição de moral final, O Idiota do Nosso Irmão leva-nos a pensar que, por vezes, é preciso ser um pouco idiota para vivermos melhor me nosso mundo. As coisas podem ser mais simples, com plantações de legumes e verduras, um cachorro, uma família unida e, tendo algum tempo, dar pra fumar um baseado também.  


O Idiota do Nosso Irmão (Our Idiot Brother - 2011)
Direção: Jesse Peretz
Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Apollo 18 - A Missão Proibida

Mockumentário é o nome dado aos filmes que, sobre uma falsa estética de documentários, conta uma história ficcional. O mais emblemático dos  mockumentários é o instigante e ousado A Bruxa de Blair. A pergunta que pessoas se faziam ao fim da exibição era: aquilo foi verdade mesmo ou não? Apollo 18 - A Missão Proibida vai beber na mesma fonte, mas apesar do conceito ser interessante, não produz os mesmo efeitos gerados 12 anos atrás por uma bruxa que nunca chega aparecer de fato na tela.

Após a batalha travada entre americanos e russos para chegar à Lua durante a Guerra Fria, algo aconteceu para que as duas potências abandonassem de vez o solo lunar. O filme mostra-se como uma edição de gravações da missão Apollo 18, que nunca foi registrada no Projeto Apollo da Nasa,  mas que culminou nesse medo de voltar ao satélite do nosso planeta.

O filme falha justamente no mote principal, assustar o espectador e se estabelecer como membro do gênero de horror. O longa mostra cedo demais quem é o inimigo, o antagonista. E convenhamos, não mete medo algum. Se espectador fosse forçado a investigar mais a origem das coisas estranhas que acontecem na trama, isso potencializaria a sensação de angústia e por sua vez elevava o medo. Algo que pode ser visto funcionando no excelente Rec.

É difícil temer um filme que tem medo de nos afrontar. Lá pela metade, eu já estava torcendo para que o vilão matasse os astronautas. O mais triste é saber que até o mais novo Transformers, usou a combinação Guerra Fria e Lua com mais inteligência. Eu teria vergonha.


Apollo 18 - A Missão Proibida (Apollo 18 - 2011)
Direção: Gonzalo López-Gallego
Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Gato de Botas

Gato de Botas é uma cópia quase fiel ao seu filme mãe, Shrek 2, que trouxe as telas aquele lindo é perigoso gatinho de olhos angelicais. É uma animação bem realizada, humor um tanto ácido com piadas de duplo sentido e boas sequências de ação. Contudo, a coragem e inovação que a série do encantador ogro trouxe ao cinema, infelizmente, não é vista no longa do gato espanhol. Os produtores foram menos ousados preferindo garantir as possibilidades de criar um nova e longa franquia de filmes.

De modo algum isso estraga a experiência cinematográfica, afinal, Gato de Botas satisfaz como entretenimento e, é muito divertido. Mas fica um gostinho de quero mais, de que poderia ser ainda melhor. Hoje, já se tem uma fórmula narrativa para se realizar uma animação satisfatória, ao menos para as crianças. Coloca-se o mocinho, o bandido, algumas boas piadas jocosas e alucinantes e rápidas cenas de ação. Se a história for, no mínimo, um pouquinho convincente, o filme tende a funcionar para o seu público alvo, a moleca. Entretanto, esse mesmo público vê Toy Story e Shrek de maneira diferente, pois os assiste milhões de vezes, compra os brinquedos, a merendeira com fotos das personagens e, ainda que a série termine, o fanatismo permanece. Até eles sabem a diferença entre um bom e divertido filme e uma obra prima. O tratamento por eles dispensado é diferente.

Curiosamente, a direção fica a cargo de Chris Miller, que capitaneou o episódio mais fraco da série Shrek, em Shrek Terceiro. Apesar da falta de ousadia, a relação de amizade do gato com o ovo, rende uma rima bem poética na conclusão do longa. Aliás, o tal ovo chamado Humpty Dumpty proporciona grande parte das melhores piadas do filme. O disfarce de ovo dourado é demais. Outro acerto da produção é o uso do 3D. Gato de Botas talvez seja a animação que melhor usou os recursos 3D, dando a ela a função de caracterizar as várias texturas do cenário. Não se restringe ao uso frívolo de jogar coisas contra o espectador só por que é bacana e vai chama-lo atenção. O 3D é pensado como uma ferramenta para o filme e não para arrancar alguns bocados a mais do bolso de quem deseja assistir.

Gato de Botas é um personagem carismático que não só merecia um filme só dele, mas também merece uma franquia. Talvez o que falte é um pouco mais de tempero hispânico e latino. Um pouco mais de pimenta. A questão é: como trazer esse gosto ousado proporcionando aprendizado e coisas saudáveis para as crianças? Esse é o desafio proposto a todos realizadores de animação da atualidade.


Gato de Botas(Puss in Boots - 2011)
Direção: Chris Miller
http://www.imdb.com/title/tt0448694/


Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Se Enlouquecer, Não Se Apaixone

Tem dias que dá vontade de sumir, em virtude dos desafios e  problemas que a vida lhe proporciona. Isso é natural. Para um adolescente de 16 anos, que quase sempre dramatiza excessivamente, o mesmo contexto traz á tona tendências suicidas. Craig é um jovem comum que luta para vencer suas limitações e, como todos, não sabe muito bem como conquistar a garota dos seus sonhos. Infelizmente, a tal paixão é namorada do seu melhor amigo, portanto, a única coisa a fazer é tentar se jogar de uma ponte. Felizmente, Craig é um jovem bem informado e ligou para o disque suicídio antes, cujo orientadores lhe indicaram procurar urgente um hospital.

Se Enlouquecer, Não Se Apaixone é uma excelente comédia-dramática que possibilita ao espectador rir das gags do sempre eficiente Zach Galifianakis e refletir sobre o trabalho das clínicas psiquiátricas, dedicadas às pessoas com algum tipo de distúrbio mental ou afetivo. O longa explora com suavidade o assunto suicídio, mostrando gradualmente a evolução de Craig entendo as razões de sua tristeza e depressão. No fundo todos temos nossas manias e pequenas loucuras, que guardamos no sótão mental, evitando assim nos prejudicar socialmente. Algumas pessoas acessam esse sótão facilmente com alguns goles etílicos. Craig não se difere de qualquer um dos espectadores que o acompanha. Só não entendeu ainda como usar a loucura que possui para achar o melhor caminho para si. O que deixa o filme um tanto mais aconchegante é que durante esse processo, Craig ainda consegue dar uma força para ajustar o caminho dos outros companheiros.

Dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck (Half Nelson - Encurralados), Se Enlouquecer, Não Se Apaixone é uma grata surpresa. Lembrou-me o início de Patch Adams - O Amor é Contagioso, em que há toda aquela algazarra cheia de filosofia no manicômio. Enfim, assista e sorria da sua própria loucura. Como diz a balada, mas louco é quem me diz, e não é feliz, não é feliz.


Se Enlouquecer, Não Se Apaixone (It's Kind of a Funny Story - 2010)
Direção: Anna Boden, Ryan Fleck
http://www.imdb.com/title/tt0804497/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

O Preço do Amanhã

Com uma premissa saborosa, O Preço do Amanhã é mais uma interessante obra da carreira coesa do diretor Andrew Niccol (Gattaca). Imagine você viver eternamente jovem, com a saúde e o corpo de 25 anos de idade. Entretanto, como tudo na vida tem um preço, você tem que pagar para permanecer vivo. Não existe dinheiro, pois a moeda dessa realidade fictícia é o tempo. Você trabalha e recebe seu salário em semanas, meses ou anos. Você pega um ônibus e ele lhe custa meia hora da sua vida. A questão é simples: Se o cronômetro zerar, você está morto. Niccol, que também assina o roteiro, cria esse cenário para dar uma cutucada, de leve, no nosso modelo capitalista, onde a máxima sempre foi - tempo é dinheiro.

Apesar de saboroso em seu início, o gosto do longa torna-se cansativo, pois o roteiro não ultrapassa a tal cutucada leve. Parece uma comida nova e diferente que nos abre o apetite no começo, mas vai se empalidecendo durante a degustação. Infelizmente, o que sobrava em ambição e ousadia em seu filme anterior, O Senhor das Armas, Niccol parece ter dosado a mão, com uma ficção científica apresentável, de fácil compreensão, mas que teve de receio de entrar para estante das obras primas. No fundo, é uma versão ultra moderna de Robin Wood, que é bem interpretado pelo subestimado Justin Timberlake. Contudo, quem rouba a cena é a exótica beleza Amanda Seyfried, que está lindamente irreconhecível no filme.

O clima de segregação social é sutil demais. Os ricos vivem mais e os pobres lutam para sobreviver. Tudo bem, mas isso já acontece mesmo. Faltou explorar por que os ricos dependem da mão de obra mais pobre.  Não é uma questão de raça suprema, como Hitler analisou equivocadamente aniquilando aqueles que julgava inferior. Os ricos precisam dos pobres vivos para manter a o ciclo funcionando. Executa-se um ou outro, para manter o equilíbrio populacional. A pergunta que ecoa é: E se o número de ricos ficasse insustentável? Eles se matariam?

O Preço do Amanhã é um longa prazeroso de ser visto, mesmo que o roteiro escorregue aqui ou acolá. Ele se assemelha ao bom Os Agentes do Destino, que também tem seu quinhão de tropeços. Fica um ar de frustração ao perceber um material tão original, nas mãos de um ótimo diretor e ainda assim não rende aquele filmaço antológico. Aposto, que se fosse adaptado para série de TV, daria algo muito mais sugestivo. Quem sabe?


O Preço do Amanhã (In Time - 2011)
Direção: Andrew Niccol
http://www.imdb.com/title/tt1637688/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com -

O Enigma do Outro Mundo

O carente gênero do horror parece o mais afetado pela síndrome da escassez criativa de Hollywood. Daí tem-se uma avalanche de refilmagens, adaptações e prelúdios.  O Enigma do Outro Mundo é uma tentativa um pouco desengonçada  de fazer uma homenagem ao clássico  longa original da década de 1980, na qual Kurt Russell ateava fogo no continente Antártico. O filme até soa agradável para os mais jovens que não curtiram a obra do mestre John Carpenter. O que difere do original é a condução bem menos requintada do suspense em saber: "qual dessas pessoas é o alien?".

O longa não faz feio, se comparada as recentes e medíocres produções do gênero. Ela proporciona uma boa diversão e alguns bons sustos ao espectador. Como já está ficando tristemente habitual nos recentes filmes de horror, o monstro é apresentado cedo demais. Teme-se mais aquilo que se desconhece e que não se vê. Esse pessoal não viu Alien, o Oitavo Passageiro não? Prefere-se mostrar um monstrengo, cujo design de arte e os efeitos são bem preguiçosos, do que elevar a enésima potência o suspense. Nesse ponto, o cinéfilo mais tarimbado pode não receber bem a produção. Há um abismo colossal entre a direção do estreante Matthijs van Heijningen Jr. e o mestre Carpenter. Poxa, tem um monstro por aí, ele pode ser qualquer um do grupo e está fazendo menos de 30 graus lá fora. Esse prelúdio não consegue trazer essa angústia até a boca do espectador, o que sobrava no filme de 1982.

Contudo, o roteiro reserva uma bela rima narrativa após a conclusão da trama. Durante os letreiros finais há cenas mostrando que, apesar de todo esforço de Kate (Mary Elizabeth Winstead) para eliminar o monstro alienígena, talvez ela tenha deixado escapar algo. Um dos poucos sobreviventes da base começa a perseguir um cão, o que casa perfeitamente com sequência inicial do longa original de 1982. Com essa mísera cena, o filme se redime, tornando uma grata homenagem a essa fascinante estória de ficção científica escrita em  1948, por John W. Campbell Jr. Portanto, se você viu o original tem que ver esse. Senão viu, veja os dois.


O Enigma do Outro Mundo (The Thing - 2011)
Direção: Matthijs van Heijningen Jr.
http://www.imdb.com/title/tt0905372/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com 
-

Guerreiro

Com a ascensão do Ultimate Fighting Championship (UFC) era natural que chegasse as telonas algum drama de lutadores dessa modalidade. Guerreiro segue a fórmula clássica dos filmes ambientados com boxer, com suas incansáveis sessões de treinamentos, os dramas pessoais e coreografadas sequências de luta. O grande problema do filme é beber demais na estética da série Rocky, e outros filmes sobre boxe, e pinçar superficialmente o mundo do MMA - Artes Marciais Mistas.

O real problema que afasta os membros da família Conlon, os irmãos e o pai, acaba não sendo o combustível necessário para o momento decisivo do filme, a luta final entre os irmãos. Fica um gostinho de "poderia ter sido mais forte, mais intenso", mas fica faltando algo. Quem se destaca é Nick Nolte, como o pai dos lutadores, cuja personagem converge toda a tristeza e rancor dos filhos, por um passado sombrio que, vez ou outra é trazido à tona no roteiro. Algo ruim e doloroso separou essa família, que acaba tendo que resolvê-la em um octógono aos socos e chutes. O contexto para um filmaço estava armado mas, infelizmente, ele não chega a se concretizar.

Curiosamente, Guerreiro fez-me lembrar o inconsistente O Vencedor, cuja a trama é parecida e vislumbrava um bom potencial, mas que acaba soando burocrático e previsível. Para um longa ambientado no mundo do UFC faltou mostrar com maior verosimilhança a dura rotina dos treinamentos desses lutadores. O filme apresenta uma série de treinamentos Made In Stalone, algo que já foi visto em 1976. Só faltou esmurrar um pedaço de carne bovina.  A direção de Gavin O'Connor suavizou demasiadamente a mão, apresentando uma versão MMA sem sangue, de treinamentos suaves e lutas sem grande expressividade. O diretor ainda faz um escolha infeliz ao retratar as lutas com a câmera, muitas vezes, atrás da grade do octógono. Nas transmissões do UFC pela televisão há todo um aparato para que o espectador se sinta dentro da arena da luta, usando assim gruas e câmeras que buscam a batalha entre os lutadores bem de perto. O'Connor escolhe ficar mais distante em grande parte das lutas, o que só é corrigido no esperado embate final dos dois irmãos.

Ainda que tenha seus escorregões, Guerreiro deve ser conferido, sobretudo, por ser o primeiro filme grande a flertar com o cenário do MMA. O drama da família Conlon não é forte o bastante para sustentar a narrativa, mas a angústia do pai (Nick Nolte) ao ver seus dois filhos resolvendo uma questão de familiar aos socos, motivada por sua própria incompetência como patriarca, é de cortar o coração.


Guerreiro (Warrior - 2011)
Direção: Gavin O'Connor
http://www.imdb.com/title/tt1291584/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
-

Não Sei Como Ela Consegue

Não Sei Como Ela Consegue é uma daquelas comédias light para se degustar com a (o) parceira(o) num desses fins de semana quaisquer. Piadas inteligentes e uma reflexão feminina sobre como essas mulheres conseguem hoje em dia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Ela é profissional conceituada, mãe, cozinheira, faxineira, leva as crianças na escola, lê uma historinha na cama para os filhos e, nos 45 minutos do segundo tempo, ainda consegue ser uma amada esposa para o marido. A pergunta é simples: não sei como elas conseguem ? Quer saber, veja o filme.

Sarah Jessica Parker interpreta o mesmo tipo de personagem que vem moldando sua carreira desde a série Sex and the City. Isso é ruim para atriz, que vem ficando excessivamente rotulada, podendo ocorrer com ela o mesmo que acabou com Meg Ryan. Contudo, para o filme, sua atuação funciona bem, pois esse estilo que Parker já domina, possibilita que ela conduza de forma segura a trama.

Não se trata de um filmaço, mas de uma obra bem realizada com algumas reflexões femininas que passam longe dos típicos excessos feministas que alguns filmes, equivocadamente, abordam quando desejam evidenciar a beleza das mulheres. A direção de Douglas McGrath faz uma opção interessante ao utilizar, em algumas cenas, uma narrativa documental, entrevistando algumas das personagens para falar da vida da protagonista, Kate (Parker). O tom balanceado do enredo se mostra claro na conclusão do longa. Kate tenta conciliar família e trabalho, mas ela sabe que nunca haverá uma harmonia constante, e sempre será de altos e baixos.

Não Sei Como Ela Consegue merece uma comparação com a comédia brazuca De Pernas Pro Ar, que com seus vibradores e bizarrices rende muito mais gargalhadas que o primeiro. O longa americano deixa um pouco de lado as vaginas e os falos, tentando entrar um pouco mais na alma dessa mulher do século XXI. Ainda há muito a ser explorado desse novo universo feminino, mas o filme dá um passo bem feito.


Não Sei Como Ela Consegue (I Don't Know How She Does It - 2011)
Direção: Douglas McGrath
http://www.imdb.com/title/tt1742650/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com -

Fase 7

O cinema argentino está numa fase tão espetacular que até filmes de suspense-horror estão sendo produzidos na terra dos hermanos. Por meio de um bom trailer embarquei em Fase 7, primeiro longa do diretor Nicolás Goldbart. Abordando a sugada temática da epidemia que devasta o planeta, o filme não traz nada de novo que seus antecessores não tenham feito melhor. O maior problema da obra é pensar que se parece com algum filme americano ou europeu. Imagine pessoas latinas confinadas em seus apartamentos por semanas. Isso iria possibilitar mais mortes do que qualquer epidemia letal. É nessa falta de identidade que reside a fragilidade do roteiro.

Impossível não colocar Fase 7 em comparação ao espanhol Rec. Se no segundo o horror zumbi toma conta, Fase 7 não se agarra a nada, nem aos problemas de relacionamento humano. O roteiro é tão preguiçoso que coloca uma mulher grávida como esposa do protagonista e essa gravidez não representa nada a narrativa. Ou seja, pra que uma grávida no filme se esse barrigão não tem utilidade alguma? São pequenos equívocos, que somados, enfraquecem o longa. O mais engraçado é que a tal Fase 7, que dá título ao filme, é mencionado numa fita de VHS dada ao protagonista, que preguiçoso, não deu muita bola para assistir. Se a personagem principal não deu a mínima, por quê eu é que tive que ver essa tal de Fase 7? Pelo menos agora tenho certeza, o cinema argentino também tem seu bocado de merda. Já estava preocupado e com inveja.


Fase 7 ( Fhase 7 - 2011)
Direção: Nicolás Goldbart
http://www.imdb.com/title/tt1568816/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com

Todos os artigos são propriedade intelectual de Gilvan Marçal. Tecnologia do Blogger.