Header Ads

Superman - O Retorno

Sem dúvida Superman - O Retorno era um dos filmes mais esperados da temporada 2006. Parte se deve ao grande êxito de público, e mesmo de crítica, que as recentes produções baseadas em super-heróis obtiveram. Entretanto, a razão fundamental da avassaladora expectativa sobre a volta do homem de aço às telas foi a escolha de Bryan Singer para comandar a produção.

Para quem não o conhece, Singer foi responsável pela direção dos dois primeiros filmes da franquia X-Men. O excepcional trabalho realizado despertou o interesse dos grandes estúdios em relação às adaptações de heróis dos quadrinhos para a telona. Sendo assim, Homem Aranha, Hulk, Demolidor, O Quarteto Fantástico devem, de certa forma, créditos a Singer.

Com uma produção milionária e um diretor de primeira linha, não tinha como dar errado, mas, deu. Toda expectativa gerada a partir da competência de Singer não pôde ser conferida no longa. Particularmente, saí bastante frustrado do cinema. Singer abusou na cautela e construiu um entretenimento sem ousadia, que até possui lampejos divertidos, mas que inevitavelmente carrega inúmeros deslizes.

O maior problema do filme é a pouca, ou quase nula, identificação do espectador com os conflitos das personagens. A razão pelo qual Superman sumiu é sutil e funciona, mas os desdobramentos deste desaparecimento soam muito frágeis. Lois Lane expressa sua ira apenas escrevendo um artigo contra o herói, mesmo ele a tendo abandonado e lhe deixado um importante legado (a grande surpresa do filme). Sabe-se que a linha que divide o amor e ódio é tênue. Lane se apresenta excessivamente passiva, como também a população mundial. Parece que os cinco anos de desastres, roubos, assassinatos que ocorreram durante o desaparecimento do herói e, que ele poderia ter evitado, passaram desapercebido e sem mágoas para o povo. Faltou conflito nesta recepção. Os seres humanos não são muito afáveis com quem costuma “abandonar o barco” e deixá-los na mão.

Outro ponto é a relação amorosa sem consistência de Superman e Lois. A presença de Richard White (James Marsden) como atual namorado da repórter demonstra o esforço do roteiro em tentar consolidar a relação entre os protagonistas. Embora as cenas de ciúmes de Clark Kent sejam engraçadas, a química do casal não vinga. Como esquecer de: “Esqueci de como você era quentinho”. Mais romântico, impossível.

Mal articulada também foi a razão, ou razões, de Superman ter voltado à Terra. Mesmo que o herói sinta falta de conhecer suas origens (razão do seu sumiço), faltou ao roteiro um conflito que convencesse a ele e ao público de que nosso planeta é o lar do homem de aço. O que mais impressiona é que o elemento para conseguir estabelecer este conflito está no filme. As inúmeras lembranças dos ensinamentos do pai do herói, Jor-El, formam a base das razões dele estar aqui entre nós. Entre milhares de planetas, a Terra foi a escolhida. Pena que estas lembranças são jogadas ao ar e acabam se perdendo em meio a grandes seqüências de ação. Saliento que o roteiro tenta antecipar esta necessidade, convencer o público da razão do retorno, utilizando um diálogo pífio entre Superman e Lois, em que ela o questiona do porquê da volta. “Eu voltei porque escuto vozes a todo tempo, e pessoas precisam de mim”. Se você foi convencido depois disso, esqueça, o filme será sensacional.

Não envolvido com as personagens de Superman, Lois Lane e o amor entre eles, restou-me Lex Luthor. Interpretado com a força habitual de Kevin Spacey, o vilão é cativante nos dois primeiros atos, rende boas risadas, tem um plano ousado contra o mundo e o herói, mas (infelizmente) o roteiro o destrói no terceiro ato. Como pode um homem ter um plano tão brilhante e ao mesmo tempo ser tão idiota a ponto de contar tudo a Lois Lane e confiar os cristais, fundamentais para o plano, a uma estúpida serviçal? Entendo que historicamente a personagem de Luthor sempre cometia gafes que acabavam inviabilizando seus planos. Porém, o mundo mudou, a compreensão sobre a força do mal também, vide 11 de setembro, e não dá mais para engolir vilão que conta toda sua estratégia para a mocinha. Esse questionamento soa ainda mais plausível se tratando de um filme dirigido por Singer. Basta avaliar os vilões de seus filmes: Keyser Soze em Os Suspeitos e Magneto em X-Men. Quanto mais se teme o vilão, mais se envolve e torce pelo herói.

As atuações de Brandon Routh como Superman/Clark Kent e Kate Bosworth como Lois Lane são convincentes. Se não puderam desempenhar mais, isso se deve à pouca ousadia do roteiro. Routh tem uma expressividade sensível e engraçada como Clark Kent e transforma o jornalista em um indivíduo deliciosamente bobão, mas bem real. Entretanto, essa mesma expressividade não se vislumbra quando ele se torna o herói. O contorno facial soa estranhamente artificial em algumas cenas (acredito que usaram retoques de computação gráfica).

Os efeitos especiais são sensacionais, como já está virando rotina nas grandes produções do gênero. Se comparamos as cenas de vôo do primeiro filme de 1978 com Christopher Reeve e as de Superman – o Retorno, perceberemos como a tecnologia evoluiu a estética cinematográfica. Entretanto, acho que parte do impacto dos efeitos se perde, pois não carregam consigo a tensão necessária para que a seqüência funcione. Como exemplo, cito a queda do avião. Apesar de bem realizada, falta algo que nos faça, enquanto espectadores, retorcer na poltrona do cinema. Talvez o fantasma do 11 de Setembro tenha feito a produção optar pelo politicamente correto, e transformar o possível acidente aéreo em apenas uma seqüência de apresentação do herói para a mocinha. Uma lástima, pois na seqüência em que o barco afunda com Lois, o filho e o namorado, já há tensão. Puxa, depois de tudo que o namorado fez para salvá-la, mesmo não sendo um super-homem, eles vão morrer? Este tipo de pergunta, que passa velozmente pela nossa mente durante a cena, é que nos faz agarrar o assento da poltrona.

Mesmo com o baixo envolvimento do público com as personagens e o ritmo inconstante do longa, que alterna exageradamente entre o desenvolvimento da trama e as seqüências de ação, o filme é um entretenimento razoável. Fica aquém, é claro, de outras produções do gênero. A excessiva cautela de Singer, que para alguns pode ser chamada de covardia ou pouca ousadia, talvez se deva a sua adaptação a um novo estúdio, a gigante Warner Bros. Ele quis fazer primeiro o filme dele (não no sentido literal) com o estúdio, realizando um projetoum tanto quanto “careta” para agradar aos investidores. Confiança adquirida, aí sim é hora de ousar. Infelizmente é assim que funciona o cinema industrial. Primeiro o lucro e depois, quem sabe, a arte. Singer fez certo, errado fui eu e milhares de fãs que esperavam por muito mais. Singer tem pontos de sobra ainda, mas é inegável que dessa vez ele escorregou. Agora, é aguardar o próximo retorno de Superman e saber se mais essa franquia pega.

[Teste para saber se você realmente gostou de Superman – O Retorno: Se tivesse oportunidade para ver o filme novamente no cinema, de graça, você iria? Quando lançar em DVD, você verá novamente?]


Superman – O Retorno (Superman – Returns - 2006)
Direção: Bryan Singer
Elenco: Brandon Routh, Kevin Spacey, Kate Bosworth, James Marsden.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
Tecnologia do Blogger.