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Eletrodoméstica

Procurando ampliar seu potencial de discussão cinematográfica, o CineSequencia resolveu abrir espaço também para os curtas-metragens - formato tão disseminado atualmente. Pegando carona na nossa decisão (e não o contrário, que fique bem claro!), teve início no dia 21 de julho o 8o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. O evento, que divide os filmes em categorias como Competitiva Brasileira, Competitiva Internacional e Mostra do Filme Livre, possui diversas sessões diárias e gratuitas. O texto a seguir diz respeito a Eletrodoméstica, de Kleber Mendonça Filho, melhor curta que vi até o momento. Vá ao festival ou assista-o agora: clique aqui


Eletrodoméstica
Kleber Mendonça Filho, além de grande crítico (www.cinemascopio.com.br), vem provando ser também um cineasta de mão cheia. Seu trabalho de estréia - Vinil Verde- foi xodó nos festivais do ano passado. Eletrodoméstica, muito bem realizado, já reservou seu espaço entre os melhores curtas desse ano.
O filme retrata, e ao mesmo tempo critica, o cotidiano da classe média dos anos 90. Kleber e sua equipe têm uma capacidade impressionante de expressar a rotina dessa fatia da nossa população. A escolha das locações e a direção de arte conseguem transmitir com incrível verossimilhança a vida daquela família. A impressão é a de que nem estamos assistindo a um filme, já que parece não haver preocupação com a beleza do cenário e do figurino. A maioria dos filmes, quando retrata um universo de poucos recursos, procura estilizá-lo para que pareça pobre, sim, mas um pobre bonito e maquiado. Com isso, não quero dizer que Kleber Mendonça despreze a estética - há planos muito bonitos e bem enquadrados, como a visão aérea de um muro que parte uma minúscula área de lazer das crianças de uma construção.
Eletrodoméstica
tem um incrível cheiro de realidade. A protagonista tem um brilho de suor na pele e muita cara de gente. Tudo parece contribuir para que o público tenha uma potente sensação de vivência de classe média em país tropical. Está tudo lá: roupas no varal, quadros de Jesus Cristo de gosto duvidoso, relógio Cassio de plástico, sofá estampado e até o latido incômodo do cachorro do quintal vizinho. O curta condensa diversos aspectos críticos : a excessiva preocupação com a segurança, a falta de espaço dos apartamentos e áreas de lazer, a incrível quantidade de eletrodomésticos em nossas casas, a dependência da eletricidade e da tecnologia. O diretor usa símbolos como o controle remoto e o Uno Mille, que são facilmente identificáveis pelos brasileiros.
Em uma manhã, vemos a rotina da família e da dona de casa que corre de um lado para outro, manipulando eletrodomésticos. Tudo é feito com a ajuda deles - até um ato simples como cortar pão. Todas as suas ações são definidas no tempo. E em tempos de correria, até o prazer é cronometrado. A Dona de Casa, robotizada (atenção para o título), presa e infeliz, arruma brechas em seu cotidiano para extrair algum tipo de satisfação pessoal.
Enfim, está tudo lá, por meio de símbolos, diálogos, ações. Além disso, o curta é divertido de assistir e ácido, com uma trilha sonora hilária.

Se um curta de 22 minutos provoca tamanha discussão, está passando da hora de ter seu espaço ampliado não só nos cinemas, como também na mídia especializada.

Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte


Mariana Souto - marianasouto@gmail.com
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