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Ritmo de um Sonho

Rap e hip hop são gêneros musicais que obtiveram uma ascensão extraordinária nas últimas décadas. Independente de gostar ou não das canções, não há como negar a força dos gêneros que saíram dos guetos suburbanos e hoje freqüentemente lideram as listas de álbuns mais vendidos. Ritmo de um Sonho mostra não só como nasce um grande rapper, mas também como os obstáculos e o empenho tornem os sonhos em realidade.

Não se deixe levar pela tradução ridícula em português, Ritmo de um Sonho. Não é um daqueles filmes previsíveis que sabemos que no final tudo vai dar certo e que nosso herói vai conseguir o que deseja. Primeiro, nosso herói é um cafetão que vive com três mulheres e as explora. Esta informação já basta para eliminar qualquer identificação do espectador com o protagonista (a não ser que você seja um cafetão, claro). Entretanto, ao final estamos totalmente identificados com Djay (Terrence Howard), justamente pelo empenho em tentar modificar sua realidade.

A partir uma crise existencial, Djay percebe que sua vida não é justamente aquilo que planejara. Ele se indgna e assim, promove uma revolução, a sua revolução. Ele acredita em si e tenta modificá-la. Seja no rap, no trabalho, no amor, na vida, para se atingir um sonho o primeiro passo é tentar. Essa afirmação óbvia de livro de auto-ajuda é a grande mensagem do filme. O que encanta de verdade é como Djay utiliza as agruras da sua vida e de seu passado e constrói sua arte.

Parece inacreditável que a letra pesada e chula de "It's Hard Out Here for a Pimp" ganhou o Oscar de melhor canção. Basta conferir a força da cena em que ela foi construída para entender que o lirismo nela empregado é um reflexo da vida da personagem. Diz sobre putas e cafetões, algo talvez distante do nosso mundo, mas que condensa o ambiente daqueles que a cantam.

Terrence Howard, que foi indicado ao Oscar pelo papel, tem uma atuação impecável. Com força e vibração na cena em que expulsa um das mulheres de casa e, com sensibilidade, sentado e chorando ao ouvir uma bela canção gospel na igreja. O que engrandece mais a atuação é o fato dele realmente cantar as músicas da personagem e convencer como rapper.

O mérito do filme se deve ao diretor e roteirista Craig Brewer. Ele acreditava neste roteiro, mesmo quando os grandes estúdios pensavam o contrário. Superou as dificuldades, acreditou no sonho e realizou um belo filme. O roteiro não possui conflitos espetaculares ou idéias originais, mas sua direção narrou com eficiência a estória, o que se traduziu em um convite ao espectador refletir sobre seus sonhos. Assim, no DVD há duas grandes estórias: a primeira protagonizada por Djay no filme e a segunda pelo diretor e a equipe de produção no extras do DVD.

Ritmo de um Sonho segue a temática e repete o sucesso de crítica de 8 Mile – Rua das Ilusões, que também ganhou Oscar de melhor canção. Ambos falam de rap, hip hop e oportunidades para se realizar os sonhos. Infelizmente, os atuais ícones americanos dos dois gêneros andam destoando da beleza apresentada por estes filmes. Talvez seja o sucesso que os estrague, portanto, talvez também seja hora de um filme que narre esse declínio do sonho. Ainda acredito que em algum lugar, um gueto, uma garagem, um garoto, seja ele um rapper, um guitarrista ou mesmo um ator, esteja acreditando mais no seu sonho após assistir Ritmo de um Sonho. Isso é bastante reconfortante.


Ritmo de um Sonho (Hustle & Flow - 2005)
Direção: Craig Brewer
Elenco: Terrence Howard, Anthony Anderson, Taryn Manning, Taraji P. Henson, DJ Qualls, Paula Jai Parker, Elise Neal, Isaac Hayes, Ludacris, Jordan Houston, Haystak, Claude Phillips, Josey Scott.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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