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Piratas do Caribe - O Baú da Morte

Parece nítido, ainda que não seja, o abismo que separa a crítica cinematográfica e o gosto do espectador de cinema (compreenda aqui cinema como entretenimento de massa). A cada nova temporada há, ao menos, um filme amado por grande parte desta massa, porém, “esculachado” pela crítica. Talvez seja função dela, a crítica, nos alertar que estamos apreciando apenas porcarias. Embora essa discussão renda um debate salutar, os grandes estúdios não dão ouvidos à minoria crítica, que acredita ser formadora de opinião, e foca em tentar agradar aos espectadores e, assim, enriquecer bilheterias.

Piratas do Caribe - O Baú da Morte poderia ser apenas mais um filme “bacaninha” da temporada, um entretenimento divertido para se apreciar durante seus longos 145 minutos, mas as duras críticas recebidas, em contrapartida aos recordes de bilheteria pelo mundo trouxeram novamente à tona a discussão: milhares de espectadores ou a crítica, quem está com a razão?

Acredito que ambos têm razão. Analisando criticamente, o longa possui sérios problemas no desenvolvimento da estória e nas atuações fracas e excessivamente caricatas de alguns personagens. Entretanto, o clamor do público não é equivocado, pois há um frescor de cinema de aventura, que há anos não aparece nas telonas. Tal sinal motivou estes milhares de espectadores a conferir o longa. Com certeza a maioria do público se divertiu, independente do julgamento se o filme é bom ou ruim. Para eles, cinema é diversão. Para a crítica, cinema é arte.

Como já citei, a continuação da saga dos piratas da Walt Disney possui alguns problemas. O pior deles é a condução frouxa e confusa da trama. A direção de Gore Verbinski assume um ritmo ágil e frenético que funciona maravilhosamente nas seqüências de ação, mas esquece de desacelerar um pouco quando apresenta os elementos que formarão a trama. O resultado são inúmeras informações jogadas ao ar, e que devido ao ritmo, o espectador tem pouco tempo de entendê-las. Perceba a confusão. Will Turner (Orlando Bloom) sai em jornada para pegar a bússola maluca do Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp), que por sua vez convence-o a encontrar uma chave, que abre um cofre, que tem um coração vivo, que pertence a um pirata amaldiçoado com cara de polvo chamado David Jones (Bill Nighy), que fez um pacto escuso com Jack em relação ao navio Pérola Negra e também, por coincidência ou não, faz do pai de Will, um refém amaldiçoado. Confuso? Tudo bem. Construí o texto confuso propositalmente para demonstrar que mesmo que seja compreensível, há melhores formas de estruturar uma narrativa. E isso acontece durante o filme.

Mas o que era confuso ainda pode ser um pouco mais. Darei um exemplo claro: O fato de Davi Jones só poder andar sobre a terra uma vez a cada década. O que parece ser uma informação essencial para o desenrolar da trama e, que ganha ainda mais força com o presente da tia de Jack, um vidro cheio de terra, simplesmente se perde durante o longa. Sem mencionar a previsível e fraca utilização dada ao vidro de terra. Muita informação para tão pouca estória.

Claro que algumas dessas informações deixadas ao vento, na verdade, podem ser ou são pistas/expectativas para a continuação que será lançada em 2007. A marca negra na mão de Jack, o retorno do Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), a importância de controlar o coração de David Jones (Bill Nighy) e o destino de Jack são elementos fortes e convidativos para o espctador conferir a continuação.

Os demais elementos cinematográficos do filme estão bem ajustados, com ressalva para os efeitos especiais e a maquiagem do rosto de David Jones (sensacional) e trilha sonora empolgante de Hans Zimmer, que embora não seja excepcional, compõe com vigor a ação em cena e abandona de vez a enfadonha trilha tema do primeiro longa. Apenas Depp se destaca, novamente, pela atuação de Capitão Jack Sparrow. Agraciado pelo roteiro que explora mais situações cômicas, a personagem de Jack é responsável por 80% das risadas do público. Fica mais visível o caráter medroso e aproveitador da personagem. Sem dúvida, esta franquia só deu certo graças ao talento de Depp. Orlando Bloom e Keira Knightley parecem dois mortos-vivos sem expressividade e repetem o mesmo baixo nível de atuação do filme anterior. Mas a atuação mais estranha fica por conta de Naomie Harris como a Tia Dalma de Jack. Tão caricata que mais parece encenar uma peça de teatro infantil.

O que surpreende em Piratas do Caribe - O Baú da Morte é que mesmo diante dos problemas o filme funciona como um bom entretenimento. Como não se retorcer de rir com a seqüência em que Jack tenta fugir prestes a ser devorados por canibais? A sensação de cinema de aventura que o filme ambiciona nos remete automaticamente a Indiana Jones. Quem não sente falta de uma aventura, com cenas pra lá de mentirosas e situações engraçadas de um sujeito bacana, mas meio doidão? Embora seja incompatível fazer qualquer comparação entre as duas produções, pois a trilogia de Indiana Jones é muito mais profunda em relação aos temas da trama, é compreensível perceber o anseio do público por este tipo de filme. Eu quero ver uma aventura meio-mentirosa, que me faça sorrir, ter um pouco de medo, quem sabe chorar no final e sair do cinema satisfeito, com a sensação de ter me divertido. Esta é a função do cinema como entretenimento de massa. Por mais que os críticos, cineastas e mesmo eu, queiramos que o cinema seja um veículo de comunicação para que a sociedade reflita sobre sua realidade, grande parte dela apenas deseja que o cinema funcione como uma ilusão de 90 a 120 minutos, que os faça desligar da realidade. Uma das funções do cinema é nos desconectar da realidade e conectar em uma outra, ilusória e transitória.

Acredito que grande parte do público entendeu pouquíssimo do enredo do filme e mesmo assim tentou se divertir. Eu mesmo saí do cinema sem entender ou lembrar de elementos como a marca negra na mão de Jack (ele já a tinha no primeiro filme?) e o retorno do Capitão Barbossa (ele não morreu no outro filme?), mas me junto ao público que saiu com a sensação de diversão concretizada. Talvez o grande público anseie por filmes de aventura com enredos menos complexos que o da trilogia O Senhor Dos Anéis. Cito a saga de Frodo, pois inúmeras foram as vezes que expliquei a amigos as minúcias da trama. Entretanto, era uníssono o comentário quanto à beleza das cenas de guerra.

Piratas do Caribe - O Baú da Morte é um bom filme que funciona em maior parte pelo talento de Depp e as situações cômicas que o tornam divertidíssimo. Não há, e creio que nunca haverá, meio de verificar quem está certo, se o publico ou os críticos. Fica aí uma situação antagônica: o público abre mão da total compreensão para se divertir e os críticos não trocam a racionalidade por uma simples diversão. Vamos ver se o terceiro longa da franquia consegue ajustar esse embate em um meio termo.



Piratas do Caribe - O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest - 2006)
Direção: Gore Verbinski
http://www.imdb.com/title/tt0383574/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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