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O Abutre

Jornalista que sou faço questão de apreciar longas que discutam a profissão, sobretudo aqueles que apimentem um tema muito complexo, mas pertinente: a ética jornalística. São tantos filmes que aqui indico duas listas - 1 e 2. Curioso é que O Abutre é focado um homem que não tem o menor conhecimento do "fazer jornalismo" mas que entende rápido que a mídia se interessa por um produto que mantenha seu público fidelizado e, se possível, aumente ainda mais a audiência. As pessoas querem notícias. Isso é óbvio. Mas que tipo? Não sei se você já notou, mas grande parte dos noticiários da TV, rádio, jornais e revistas possui uma alta concentração de violência e crimes. Esse estupendo filme só mostra que, esse produto servido diariamente a consumidores vorazes, nem sempre é produzido de forma tão limpa como a ética jornalista preconiza.

Dirigido e escrito por Dan Gilroy, O Abutre é um daqueles filmes incômodos, que enojam o espectador ao perceber que aquilo tudo não se trata apenas de uma obra de ficção. As pessoas fazem de tudo por um furo, no jargão jornalístico. Mas fazem ainda mais por poder e um pouco mais de dinheiro. Ou seja, não é um problema do jornalismo, permeia o ser humano. O filme transcorre e o gosto amargo vai ficando cada vez pior, em contrapartida, o espectador fica instigado com a ótima trama e como aquilo vai terminar. A sequência final diz por si só, ao mostrar como o Louis (Jake Gyllenhaal) lida com o fato de outras pessoas desejarem sua parte na carniça.

Gyllenhaal é monstruosamente arrebatador, com sua magreza e olhos fundos, de quem pouco dorme. É disparada sua melhor performance na carreira. Ora sagaz, carismático e inteligente. Ora soturno, psicótico e perigoso. Está tudo ali, em um olhar, nos gestos, na maneira com que pausa as falas. Um trabalho espetacular. Em contraponto temos Rene Russo, como Nina, uma diretora de noticiário de um canal local, que precisa fazer de tudo para garantir os níveis de audiência que fará ela se manter no cargo. Se Louis precisa do dinheiro, Nina precisa das notícias. Quanto mais árido e sangrento, mais valioso será o produto.

Na conclusão de O Abutre não sabemos quem é de fato pior, Louis ou Nina? Acredito que eles são complementares. Ele não é jornalista. É apenas um sujeito esperto que agarrou uma oportunidade semelhante ao que ele fazia antes; roubar. Ele rouba a privacidade de um pessoa, ainda que morta, e a vende para a TV. Mas como no circo, a TV precisa elevar cada vez mais o nível de suas atrações para melhor entreter seu espectador. Diante desse desafio Louis mexeu alguns pauzinhos e cadáveres para atender a demanda do seu mercado.

O que mais apavora é a conduta da mídia nisso tudo, espelhada em Nina, que sabe que as pessoas não querem simplesmente acompanhar um fato ocorrido, querem uma história onde aquilo se enquadra. Como ela diz: "Acho que o Louis está inspirando a gente a elevar um pouco mais a mentira". Infelizmente, a pergunta fundamental dessa excelente discussão não é respondida. A TV produz esses conteúdos por que o público deseja, ou o público deseja cada vez mais por que a TV as produz? Eu não sei como responder, mas lembrou-me outro filme sobre o tema Mera Coincidência que diz: Será o cão que balança o rabo ou o rabo que balança o cão?



O Abutre (Nightcrawler - 2014)
Direção: Dan Gilroy
http://www.imdb.com/title/tt2872718/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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