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O Palhaço

O cinema brasileiro segue a passos calmos, porém seguros, rumo a maturidade. Há o cinema pop-pipoca das comédias da Globo Filmes, que rendem boas bilheterias e fortalecem o elo do público com o novo cenário cinematográfico brazuca. Também tem os filmes autorais e vigorosos de alguns realizadores, como Beto Brant, de obras como O Invasor e Crime Delicado. E há aqueles que conseguem ser a junção desses dois mundos. O Palhaço, segundo longa dirigido por Selton Mello, transita muito bem no pop agradável para as grandes plateias e também mostra toda a beleza e arte de um cinema cada dia com mais cara de Brasil.

O longa não é apenas uma linda homenagem as artes circenses, em especial ao ofício do palhaço, mas uma grata reflexão sobre o que somos e o que estão fazendo com nossos dons. Em certo momento a personagem de Selton, Bejamim, questiona que faz todos rirem, mas não há ninguém que o faça rir. É essa busca que impulsiona a história, em meio a gargalhadas, angústias e ventiladores. A alegoria narrativa utilizada no roteiro, por meio dos ventiladores, é fabulosa. Os cinéfilos mais experientes notaram um ar de cinema italiano, sobretudo de Fellini e Vittorio De Sica. Note como a primeira cena, da trupe passando por uma estrada com canaviais e boia-frias trabalhando, casa-se perfeitamente com a conclusão do filme. Sutileza de um roteiro bem estruturado com uma direção sensível e correta.

Além de explorar boas reflexões, Selton Mello não esquece de entreter o grande público. A cena do delegado, interpretado por Moacyr Franco, é deliciosamente engraçada. Paulo José, que faz o palhaço e pai de Benjamim, faz o de sempre, arrebatando a platéia do sorriso às lágrimas, em fração de minutos. É importante notar a harmonia com que as personagens de Selton e Paulo, apesar de aparentemente serem bem diferentes, estão conectados com algo maior. A sequência final no longa mostra isso com primor e elegância.

Contudo, o momento mais tocante do filme, infelizmente, necessita de muita bagagem para ser apreciado. Jorge Loredo, muito conhecido pelo sua personagem Zé Bonitinho, faz uma breve passagem no longa, na qual interpreta o chefe da loja de ventiladores. Loredo é utilizado de forma tocante, fazendo Benjamim perceber qual o seu real dom. O ator Jorge Loredo é um dos ídolos de Selton Mello, na qual ele não sossegou até levá-lo a telona. O primeiro curta metragem de Selton, Quando o Tempo Cair, é protagonizado por Loredo. Perceba que em O Palhaço, é a imagem do ídolo Loredo que desperta Benjamim. Se Selton é hoje um cineasta, isso também se deve ao seu desejo de levar talentos como Loredo   para o público. Essa é uma das mais lindas homenagens que eu pude apreciar utilizando o arte cinematográfica como canal.

Se em seu primeiro longa, Feliz Natal, Selton demonstra ousadia e coesão abordando uma temática árida. Em O Palhaço, ele se entrega a sutileza e a leveza, sem nunca esquecer de convidar o público a levar um pouco do filme para ser pensando em casa. A carinha pop do cinema brasileiro é muito mais do que se imagina. Talvez esteja nascendo um dos mais importantes diretores da história do cinema brasileiro. Resta esperar agora, salivando, o seu próximo projeto.


O Palhaço(2011)
Direção: Selton Mello
www.opalhacofilme.com.br/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com

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