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O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

O fascínio humano pelo mal, ou mesmo pelo lado obscuro, é algo intrigante e que é facilmente averiguado desde os tempos mais remotos. Por mais que a estrutura narrativa do cinema nos condicione, ou mesmo nos doutrine, a gostar do mocinho, há sempre uma parcela que , se não admira, respeita o bandido. Jesse James é um dos bandidos mais conhecidos da história americana e suas estórias sempre despertavam temor é curiosidade. O longa do diretor Andrew Dominik narra a trajetória de um jovem cujo fascínio pelo ídolo se transforma em um funesto e melancólico embate de sentimentos - idolatria versus inveja.

O filme pode ser percebido, superficialmente, como um faroeste contemplativo. Basicamente são lindas imagens permeadas de ricos diálogos e pouquíssima ação. Entretanto, o ritmo cauteloso dosa com eficiência as inúmeras nuances da estória, deixando a trama gradativamente mais carregada e triste. Paradoxalmente, a sensação quase fúnebre que o longa transmite, afinal é um filme que nos prepara desde a primeira cena para a morte do protagonista, é contraposta com imagens belíssimas. A fotografia, a cargo de Roger Deakins, que parece transbordar da tela, é usada com inteligência para pontuar a narrativa. Perceba que quando o narrador fala, as imagens parecem contemplar o passado, sendo algumas desfocadas nas bordas. A concepção fotográfica nas cenas que antecedem o assalto ao trem são dignas de serem emolduras e afixada na parede.

Outro ponto substancial é a trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis, que pontua sonoramente o clima fúnebre do filme. Porém, quem rouba literalmente a cena, [desculpe o trocadilho previsível] é Casey Affleck, como Robert Ford. Uma atuação detalhada que cresce no ritmo do longa e que derrama todo o talento desse promissor ator nos minutos antes da cena mais aguardada, o assassinato. Curiosamente é a segunda atuação excepcional que destaco de Casey em trabalhos de 2007, sendo o primeiro por Medo da Verdade. Brad Pitt está bem, e é bom vê-lo escolhendo projetos mais ambiciosos para sua carreira. O último bom trabalho de Pitt no cinema foi em Clube da Luta.

Agora, os louros por essa pérola cinematográfica é o diretor Andrew Dominik, também responsável pelo roteiro, baseado no romance de Ron Hansen. Apesar de toda beleza das cenas e a articulação cuidadosa da trama no roteiro, Dominik se mostra um diretor simples, sem grandes estripulias visuais. Diante de uma estória tão densa e carregada de reflexões, ele opta acertadamente em simplesmente contar ao espectador que: Jesse James morreu assim, e Robert Ford, o assassino, fez isso por que no fundo queria ser igual ao bandido-mito. Parece simples, mas não é.

Engraçado, que apesar de toda ambientação faroeste, do fim do século XIX dos EUA, o longa me remeteu ao assassinato do Beatle John Lennon. O fascínio e a idolatria que aparentemente podemos associar com o amor, pode se transformar em inveja, rancor, portanto ódio. Há quem diga que uma linha muito tênue divide os dois. Robert Ford achou que se tornaria famoso por dar fim a um assassino, entretanto ele matou um mito. O longa fecha de forma sublime salientando isso, pois quase ninguém sabe quem foi Robert Ford. E mesmo agora, quando o filme da vida dele está distribuído pelo mundo, dirige-se a ele como covarde. Mas afinal, quem matou John Lennon mesmo? Sei lá, o que importa que continuo amando Imagine. Mata-se o homem, nunca o mito.


O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2006)
Direção: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Zooey Deschanel, Jesse Frechette, Mary-Louise Parker, Sam Rockwell, Paul Schneider, Sam Shepard.
Duração: 160 minutos

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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