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Curtas em Tiradentes

Texto publicado no site Filmes Polvo na Cobertura da Mostra de Tiradentes - www.filmespolvo.com.br

A Estória da Figueira
(Julia Zakia, 2006)

A adaptação de uma cantiga luso-brasileira destaca-se pelo trabalho de arte e fotografia. Passada em um lugarejo isolado e não identificado, estabelece um ambiente de fábula e lirismo, semelhante à atmosfera de “O Labirinto do Fauno”. Em ambas as histórias, uma garota de vestido colorido atravessa um universo visualmente bonito, estranho e de peso dramático. Apesar de ser aparentemente um mundo de fantasia, muito de real se encontra ali. O curta tem base forte na realidade, mas seus elementos são transformados e enriquecidos ficcionalmente. O cotidiano das garotas é tratado sob o conceito de realismo fantástico.

Ao curta cairia bem um maior tom poético, o que não quer dizer que tenha que ser mais solto e menos narrativo, coisa que já é em excesso, afetando a compreensão da fábula. Pausas e atuações mais contidas, sobretudo a da madrasta, também ajudariam. Sobre o coadjuvante jardineiro/cachorro, só tenho a dizer que caiu de pára-quedas.

Na falta de melhor explicação, digo que seria bonito se tivesse mais clima de vento.

Manual para atropelar cachorros
(Rafael Primo, 2006)

Adorado pelo público, o curta de Rafael Primo (que também atua) traz uma atmosfera pop e dinâmica, como nos filmes de Quentin Tarantino. O universo oriental, também caro ao diretor de Kill Bill, faz parte das obsessões de um protagonista perverso, que remete a Lourenço, de “O Cheiro do Ralo”. Se o personagem de Selton Mello ataca a dignidade das pessoas e admira bundas, Mojo (Primo) canaliza seu ódio para cães e tem fixação por traços orientais. A cultura japonesa pop, recheada de cores e musiquinhas que soam engraçadas a ouvidos brasileiros, o ágil trabalho de montagem e a forma de narrativa em listagem e rankings ("Alta Fidelidade") ganham a simpatia da platéia.

Mojo tem como hobby atropelar cachorros. Numa longínqua análise psicológica de um personagem desequilibrado percebe-se, principalmente através da imagem em que parece estar numa orgia e logo vemos que as três mulheres na verdade são seus três cães, que ele associa cachorros a cadelas e cadelas a mulheres. Com sua inaptidão para o relacionamento social e amoroso, não consegue se aproximar de sua paixão platônica (Bárbara Paz) e sai com uma prostituta (Zezé Polessa). Seus desejos inconscientes afloram e ele avança com o carro em cima dela, assim como faz com os cães. Desprovido de delicadeza, sua forma de se relacionar com mulheres é atravessando-as e causando-lhes dor. Com os atropelos, extrai uma espécie de prazer mórbido.

O humor negro, sempre presente em “Manual”, parece estar ganhando cada vez mais espaço no cinema brasileiro. Apesar do mau-caratismo, os personagens acabam envolvendo o público com seu carisma. Além de serem sedutores, muito de identificação conta no motivo do sucesso com a público, já que não há ser humano que não tenha um pitada (ou 3 xícaras) de maldade. A diferença é que no cinema o exercício do sadismo é possível – e até risível.

O Brilho dos Meus Olhos
(Allan Ribeiro, 2006)

Allan Ribeiro retrata a dura rotina de um pedreiro e sua vida sem cor. A câmera capta seu olhar apático e melancólico, numa solidão em meio às pessoas do metrô, olhar esse que rima com o lírico plano final do curta. Após o trabalho, canta karaokê, o único momento do dia em que solta sua voz (percebam o trocadilho com a música de Gonzaguinha), seus olhos brilham e sua vida ganha cor. Em devaneios, canta para uma grande platéia num palco decorado. E o que nos parece brega fica bonito, pois não se rejeita o que simboliza o sopro de vida de uma pessoa.

O karaokê surge para o pedreiro como espaço de salvação e busca de sentido de vida. O que para ele vinha da música, para outros (operários ou não) vêm do cinema, do gamão, da caminhada, da aquarela. E sem sentido de vida, não se vive. Ou se vive deprimido.

Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados
(Carlos Magno, 2006)

Programado para ser o último curta não só da sessão, mas da mostra, e com razão, o curta de Carlos Magno provoca incômodo e reflexão. O dinâmico e ritmado trabalho de montagem causa uma positiva confusão no espectador que percebe a crítica à igreja, mas não consegue detectar um discurso construído, panfletário. O efeito é próximo ao de uma mensagem subliminar e a chamativa estética tem papel fundamental no envolvimento do público. Os atores (e toda a equipe, como soube em entrevista com o produtor Chico de Paula e a atriz Shyrlene Oliveira) usam macacões amarelos que remetem a Kill Bill e Bruce Lee, mas que na verdade parecem ter sido usados como afirmação de uma identidade de grupo dos “religiosos” em contrapartida aos fiéis. Até algo de nazista já que segundo Shyrlene, em seu teste procuravam por uma atriz de características arianas, pele e olhos claros.

“Igreja” é uma experiência estética. Carlos Magno constrói o impacto do filme não só com o conteúdo forte, mas com uma forma altamente peculiar e autoral, com trilha, imagem e edição que se juntam para fazer uma espécie de lavagem cerebral, assim como querem provar que acontece nas igrejas e seus cultos hipnóticos. Sendo assim, usa da forma que observa nas religiões (em especial as evangélicas) para fazer seu filme e fortalecer seu conteúdo. Se os fiéis entram em transe com música e discursos que se assemelham a mantras, o público de Magno entra em um transe artístico e cultural. O curta possui uma potência imagética e um estranho magnetismo que parece ter sido planejado para atingir o inconsciente de quem o assiste.

A equipe anunciava, por alto-falante, o culto que seria realizado em um galpão numa região bastante pobre de Belo Horizonte. Ofereciam uma quantia em dinheiro (espécie de cachê simbólico) para quem entrasse e pegavam autorização de uso de imagem, mas ninguém sabia que se tratava da filmagem de um curta. Na verdade, até hoje não sabem. A comunidade pensava que simplesmente havia aberto uma nova igreja na região. Shyrlene, apesar de ter gostado muito, narra a experiência de participação no filme como algo marcante e controverso; os atores tinham que estar preparados para qualquer imprevisto e sofriam uma grande exposição. Conta que sentia-se mal ao ver pessoas na “platéia” se envolvendo e acreditando, com direito a ‘em nome do pai’, olhos fechados e mão sentida no peito. Em um momento avançado das filmagens, uma multidão se amontoa na porta do galpão querendo entrar, a ponto da produção precisar chamar a polícia. O impressionante é que a quantia mencionada variava de um real a entrada e dois reais para quem fizesse depoimento. Pois é.

O diretor nos mostra como essa parcela da população está sujeita às arbitrariedades e picaretagens de religiões. A Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados usava em seus ritos mulheres nuas, sangue, bodes, crianças e ninguém questionava, demonstrando a submissão e falta de pensamento crítico dos brasileiros fanáticos. A comunidade só se revoltou quando não podia entrar mais no galpão - uma questão que afetava o bolso. Outra conclusão possível é a de que as pessoas, por dinheiro, trocavam de religião. Provavelmente muitos daqueles já eram freqüentadores de outras igrejas e, com a pequena publicidade de alto-falante e o mísero pagamento, já viraram a casaca e abandonaram facilmente algo que teoricamente dizia de seus princípios, verdades e crenças. O fiel de “Igreja Revolucionária” é facilmente corruptível. É importante ressaltar que a moeda só tem todo este peso devido à situação precária em que vive aquela comunidade.

Além de experiência estética, “Igreja” pode ser pensado como experimento sociológico. As repercussões de seus efeitos e a polêmica metodologia de realização podem ser discutidas amplamente. Carlos Magno, para mostrar como as pessoas se vendem, comprou-as. Para provar como acreditam cegamente em qualquer coisa, enganou-as. Seu ponto está provado. Para fazer uma crítica poderosa, provocar emoções e construir uma interessante peça de arte, vale a pena cair nos mesmos erros que se critica? Os embates éticos parecem ser conscientes na equipe, que durante todo o processo se questionava e questionava o diretor. O trabalho de atuação para um público que não sabe estar fazendo parte de um espetáculo, o contato com uma população carente e envolvida emocionalmente, o risco até de morte e toda a polêmica moral deixaram marcas nos participantes que até hoje se sentam para discuti-lo. E a força e potência do curta, de uma forma ou de outra, acaba chegando até o público, de forma a não deixar espaço para que nada possa ser assistido depois.

Mariana Souto

marianasouto@gmail.com
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