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O Código Da Vinci

Chega aos cinemas a adaptação do sucesso literário do escritor Dan Brown, O Código Da Vinci. Particularmente não aprecio o livro, mas reconheço seus méritos – uma trama envolvente que discute elementos dogmáticos da Igreja em uma narrativa ágil e de fácil entendimento pelo leitor. A obra falha em criar um ambiente de thrilher de aventura tentando transformar o protagonista, Robert Langdon, em uma espécie de novo Indiana Jones. As reviravoltas batidas e o final insosso fazem de O Código Da Vinci apenas uma boa obra de entretenimento.

A expectativa com relação à adaptação para o cinema era de que os pontos falhos do livro fossem resolvidos ou minimizados. De certa forma, algumas seqüências estão melhores, mas outras, perfeitas no livro, foram bastante prejudicadas no longa. Um delas é a seqüência inicial no Museu do Louvre, que têm um ritmo ruim e é demasiadamente curta. Muitos elementos importantes da trama são apresentados neste período, desde a morte de Jacques Sauniere (Jean-Pierre Marielle) até a fuga de Robert Langdon (Tom Hanks) e Sophie Neveu (Audrey Tautou) do museu. As informações estão jogadas e o espectador, que não leu o livro, possivelmente se sente perdido e sem compreender.

Um bom thrilher que se preze necessita de uma boa introdução que instigue o espectador a saber mais, mas neste quesito o filme falha feio. A direção burocrática de Ron Howard durante todo o longa é tímida e pouco ousada. Reflexo disto é a pouca inspiração da montagem, da trilha sonora e até, acreditem se quiser, dos efeitos especiais. Cito como exemplo a solução preguiçosa da fotografia para distinguir os flashbacks através de uma textura mais granulada usando tonalidades em azul. Felizmente, o talento de Sir Ian McKellen, que interpreta Sir Leigh Teabing, salva o segundo ato e introduz no filme à curiosidade peculiar que a trama do livro desperta.

Todo o desenvolvimento de Leigh sobre o Santo Graal, o Priorado de Sião, os Cavaleiros Templários e a ligação de Leonardo Da Vinci com tudo isso é sem dúvida o ponto mais forte da obra. Afirmo que sem a presença do talento de Sir Ian McKellen o filme seria desastroso. O ator ocupa a tela com leveza e humor apresentando à personagem de Sophie a conspiratória história do Santo Graal. As rápidas discussões entre Langdon e Leigh elevam o nível das atuações, e faz o até então opaco Tom Hanks voltar a seu talento habitual. Enquanto são apresentadas as teorias, um grande monitor de vídeo mostra e realça as explicações sobre o quadro da Santa Ceia de Da Vinci. Uma solução simples e funcional.

Chegamos às questionáveis reviravoltas. Nunca engoli a presença do mordomo de Leigh e sua funcionalidade na trama, no entanto, o filme insistiu neste erro. Também é bem frustrante verificar a forma com que a personagem mais cativante da obra, Leigh, [Spoiler] torna-se o vilão. [Fim Spoiler] Mudanças em adaptações de grandes livros sempre geram protestos dos fãs, mas se bem realizadas agregam muito à narrativa, vide em O Senhor dos Anéis. As mudanças realizadas em O Código Da Vinci, sobretudo no terceiro ato, que irei descrever a seguir, melhoraram o final, que no livro é bem “chocho”. Pena que estas mudanças também não tenham sido realizadas nas reviravoltas.

O roteiro de Akiva Goldsman possui seus erros e acertos. A participação da personagem do Bispo Aringarosa (Alfred Molina) é bastante reduzida, o que acaba minimizando o envolvimento da Igreja Católica e da Opus Dei na trama. Fica nítida a posição da produção – evitar confusões através do conteúdo crítico de Dan Brown sobre a Igreja e fazer dinheiro. O monge Silas (Paul Bettany) e o policial Bezu Fache (Jean Reno) também são reduzidos e assim transformados em meros capachos da vontade do bispo. Com a urgência de apresentar todo o enredo ao espectador, não sobrou tempo para explorar as personagens. Descobrimos um pouco sobre os protagonistas, Langdon e Sophie, apenas no final, quando talvez o espectador já tenha desistido de estabelecer alguma simpatia por eles.

De qualquer forma, o que mais me agradou foi o final. Com muito custo, ainda que tardio, a relação entre Langdon e Sophie foi estabelecida como protetor e protegida. Langdon fora convocado por Sauniere para encontrar o Santo Graal. Embora achasse que estava procurando algo, ele na verdade a estava protegendo. Pena que essa relação não tenha sido explorada, mesmo que inconscientemente por parte de Langdon, durante todo o filme. Ao contrário do livro, com o patético beijo na boca entre o casal, o roteiro opta por uma visão mais paternal. A piadinha, deliciosamente herética, em que Sophie tenta andar sobre a água é bem incisiva ao questionamento que O Código Da Vinci faz sobre a divindade de Jesus – seja humano e tendo ou não esposa e filhos, Jesus continuaria a ser um grande exemplo para humanidade e a fé que os cristãos possuem não seria abalada por isto, e sim renovada. O filme até tenta refletir sobre a obra de Dan Brown, pena que para isso transforme Robert Langdon em um burocrático cientista politicamente correto. Cinema de entretenimento é isso aí, até as reflexões são enlatadas e mastigadas.


O Código Da Vinci (Da Vinci Code, The, 2006)
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany, Alfred Molina, Jürgen Prochnow, Jean-Yves Berteloot, Etienne Chicot, Jean-Pierre Marielle.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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