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Alemão

Em certo momento em Alemão eu senti um gostinho de Cães de Aluguel, fato da trama trancafiar cinco pessoas dentro de um pequeno ambiente, na qual a tensão e explosões emocionais das personagens diante do problema proposto pela história só confirmam ao espectador uma verdade árida - dificilmente eles vão sair vivos daquele embate. Um filme simples, uma ótima história de polícias infiltrados no Morro do Alemão antes da ocupação e um elenco enxuto e talentoso. O que não consigo entender é como um filme tão bom e envolvente teve tão pouco impacto nos espectadores? (cito bilheteria e boca a boca) É, pensando bem, pouca gente viu Cães de Aluguel na época. Só foram conferir depois que Pulp Fiction explodiu. Esse bem dito público é mesmo difícil de entender.

Dirigido por José Eduardo Belmonte (A Concepção) o longa utiliza um recorte atual da pacificação dos morros cariocas e cria uma trama inteligente de policiais infiltrados no morro do Alemão que foram descobertos pelos criminosos, dias antes da invasão. O clima de urgência e suspense temperam muito bem a trama, na qual o ótimo roteiro (do parceiro Gabriel Martins) sempre apresenta uma novidade, uma pequena virada, que deixa o espectador perplexo, levando as mãos ao rosto e dizendo: putz, agora lascou para eles. Essa angústia vai conduzindo o espectador pelos 109 minutos de duração e o resultado final é bastante coerente e convincente, ainda que seja uma tragédia previsível.

Claro que o longa tem seus pecadilhos, mas nada que comprometa muito o impacto proposto pela narrativa. As cenas de tiroteio são bem bagunçadas, talvez seja proposital, afinal, milhares de tiros e tudo decupadinho e sincronizado, só Hollywood acha que é assim. Apesar do visual estilizado e a interessante atuação de Cauã Reymond, como o chefe do tráfico, a personagem é menos forte do que deveria ser. Contudo, o pouquinho de tempo que dão para Antônio Fagundes, que interpreta o delegado da operação, ele faz o de sempre, dá show. Nota para dois momentos geniais do roteiro ao inserir uma personagem que, parece influente e informa ao chefe do tráfico o dia que irá acontecer a invasão. Essa referência à pessoas influentes pode ser à artistas e jogadores de futebol, o que de fato acontece atualmente. Outro ponto é a diferença entre o armamento dos polícias e dos criminosos, na qual a cena da batalha final deixa bem claro por que os bandidos andam vencendo mais que os mocinhos no Brasil.

Alemão terá sempre a sombra de Cidade de Deus e da bilogia Tropa de Elite nas análises comparativas, mas acho que a produção buscou se distanciar disso. Belmonte realizou um pequeno thriller de ação de cincos policias escondidos no meio de uma favela sem nenhuma perspectiva de saírem vivos de lá. Em momento algum há um plano de fuga. Não é um filme escovadinho de policiais ninjas que driblam a realidade , salvam o dia e voltam para suas vidas simples. Mermão, a casa caiu e eles não sabem como sair dessa enrascada. Essa agonia é que aguça o paladar desse bom filme. Muito superior ao insosso Assalto ao Banco Central, Alemão não só merece, como tem que ser visto por mais pessoas. Com tanto filme nacional médio e o vício por comédias repetitivas, você tem que assistir Alemão. E não assiste não prô cê vê cumpadi, o bicho vai pega prô seu lado. O bagulho aqui é doido e se não fechá com nóis, eu vou sentá o dedo. Na atividade, tamo junto.



Alemão (2014)
Direção: José Eduardo Belmonte
http://www.imdb.com/title/tt3527550/

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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