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Tropa de Elite e a Pirataria

Tropa de Elite, primeiro longa ficcional de José Padilha (Ônibus 174), já geraria frisson e alarido na mídia pela sua ousada proposta. O filme narra a perspectiva de um integrante do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Policia Militar) sobre a atuação da polícia e a violência no Rio de Janeiro. Não bastasse ser o mais bem realizado filme, desde Cidade de Deus, o longa crava uma marca histórica – a chegada oficial da pirataria no cinema brasileiro.

Tropa de Elite tem estréia prevista para dia 12 de outubro, mas já pode ser facilmente comprado em DVD e baixado na internet. Eu vi, e asseguro a boa qualidade do vídeo disponibilizado. Não farei uma crítica sobre o filme, pois averiguei que a cópia disponibilizada pela pirataria, talvez não seja a final. Também seria prematuro avaliar um material, antes mesmo deste estar realmente finalizado. Porém, saliento que se a versão que tive acesso for a final, que vai para os cinemas, tenho certeza, será difícil tirar o título de melhor filme do ano das mãos de José Padilha. O filme é tão bom, que não paro de cantar a canção da [pífia] banda Tihuana – “Tropa de Elite osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você”. Agora, aguardem dia 12/10.

Fiz meu lobby, e você leitor, já deve estar imaginando – Em que site ou camelô eu consigo esse filme? Quero discutir aqui as facetas da pirataria neste caso de Tropa de Elite.

Jornalistas, críticos e corneteiros discutem o impacto que este acidente pirata vai causar a bilheteria de Tropa de Elite. Inevitavelmente, muitos que viram o filme de forma ilegal, não irão ao cinema. Mas quem disse que eles iriam, se não houvesse este vazamento? O sistema de distribuição dos filmes brasileiros é visivelmente fraco, e pouca gente consegue vê-los. Gasta-se tudo que tem na produção, e Deus nos acuda na hora de distribuir. Sejamos sinceros. Com exceção dos cinéfilos mais sofisticados, que já conhecem o trabalho de José Padilha, no excelente documentário Ônibus 174, quem iria ver Tropa de Elite? Talvez as meninas apaixonadas pelo Olavo, digo, Wagner Moura, que interpreta o protagonista. No mais, o filme iria necessitar de um bom esforço de mídia e marketing para cativar o público. Finalizando, o público do cinema nacional é praticamente o mesmo. Com exceção das bobagens produzidas pela Globo Filmes, são sempre os mesmos que vão conferir o cinema nacional. Pergunta a dez amigos: Quem é Beto Brant ou Jorge Furtado? Ficarás impressionado com o resultado.

Tropa de Elite bem poderia ser um baita fiasco comercial, pois custou mais de 10 milhões de reais. Com o advento do acidente pirata, o longa está gerando um boca a boca interessante entre os cinéfilos. Até o nerd, que achou Transformers o melhor filme da sua vida, está correndo atrás de Tropa de Elite. Segundo ele: Ué, me falaram que é bom pra caramba, vou ver. Neste ponto, o filme está ganhando uma publicidade que dificilmente conseguiria em situações normais. Eu o vi, e minha primeira reação foi dizer: “vou ao cinema só para dar minha grana por este filme. Esse Padilha merece.” Nem todos possuem essa alma caridosa com relação ao cinema nacional, mas é preciso perceber que o que aparentemente causou um mal, o acidente pirata, pode estar se transformando em bem. Só saberemos o resultado no futuro.

O acidente pirata que me refiro, já ocorre com freqüência no exterior, e no Brasil teve como seu primeiro alvo, Tropa de Elite. A pirataria que acontece sobre os filmes brasileiros, é baseada na clonagem de DVDs. O filme nacional quando é lançado comercialmente em DVD, é clonado e vendido a R$ 5,00 numa banquinha próximo de você. Através do mesmo DVD, o pirata também extrai o vídeo, em alta qualidade, e disponibiliza na internet. Portanto, a pirataria se dava depois que o filme já estava fora do circuito das salas de cinema. Cito como exemplo, A Grande Família. No entanto, Dois Filhos de Francisco ganhou cópia pirata três semanas após entrar em cartaz. Neste caso, um pirata entrou no cinema, filmou com uma câmera o filme, colocou no DVD, em qualidade baixa, e vendeu. O qualidade é muito ruim, e com o tempo, o mercado que consome os filmes piratas, já não estão satisfeitos com esse tipo de resolução gráfica.

O acidente pirata de Tropa Elite é inédito no Brasil. Algum pirata teve acesso a um DVDScreener, ou uma cópia do filme em DVD, que normalmente é enviado para críticos de cinema, festivais internacionais, ou mesmo para os produtores verificarem o material antes de ser lançado. Estes DVDs deveriam ser materiais ultra-secretos, mas que infelizmente [ou felizmente] caem nas mãos de piratas que o disponibilizam a todos. Simplificando, Tropa de Elite vazou.

A pirataria dos filmes ainda em cartaz nos cinema acontece em dois casos: o pirata filma no cinema, chamado de telecine [baixa qualidade] ou alguém da produção do filme deixa vazar uma cópia em DVD [alta qualidade]. Não adianta produtoras, estúdios, diretores, associações de direito autoral brigar contra a pirataria. Nunca vão vencer. É preciso repensar a questão de sigilo na produção cinematográfica. Já há estúdios que proibiram a disponibilização dos filmes em DVD antes e durante a janela de exibição nos cinemas. Cinema é um produto caro e que é consumido com ferocidade, portanto é preciso mais zelo. Durante a corrida do Oscar, dezenas de filmes, que pleiteiam indicações e estatuetas, vazam para internet. Por que? Por que os produtores liberam os tais DVDs para críticos de cinema e membros votantes da academia. Por causa de lobby, acabam dando o filme de bandeja para a pirataria.

O acidente pirata com Tropa de Elite mostra-nos que é preciso entender a amplitude da indústria cinematográfica. É triste dizer isso, mas a produção do longa dormiu no ponto. A pirataria nunca dorme. Enquanto o brasileiro dorme aqui, tem um russo lá fazendo uma cópia. Entramos na era da segurança cinematográfica. Agora, curiosidade: Como será isso na era digital, quando os filmes deixarem a película e virarem zero [0] ou um [1]?

Curta os cinco minutos iniciais do longa - Tropa de Elite

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