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Os Infiltrados

Após a sessão de Os Infiltrados, novo filme de Martin Scorsese, haverá dois tipos distintos de cinéfilos: os empolgados com o revigoramento da carreira de Scorsese e os frustrados pelo remake sem sentido que o mestre realizou.

O filme é a refilmagem do thrilher policial chinês Conflitos Internos (Infernal Afffairs), já disponível em DVD no Brasil. Scorsese deu um tom americano a trama, que se passa em Boston e explorou mais profundamente as personagens. Fica evidente que o clima acelerado e angustiante do original é substituído pela cautela e a mão precisa do diretor. Pena que funcione apenas no primeiro ato do longa, quando da apresentação da trama e das personagens. Depois, são mais de uma hora e meia de falta de originalidade e quase plágio do longa chinês. A única diferença, DiCaprio e Damon não possuem olhos puxados.

[O texto crítico abaixo cita dados da trama.
Desaconselhável para quem ainda não viu ao filme]


Entretanto, vou fingir que não vi o filme original. Deste modo, Os Infiltrados é uma obra interessante, possui uma trama intricada e uma reviravolta final surpreendente. O longa agradou em cheio as platéias do mundo, dando a Scorsese a maior bilheteria de sua carreira. Sei que citar bilheteria em críticas é um erro, mas se faz necessário neste caso. Scorsese realizou um filme "pop" muito acima dos similares no mercado e foi bem sucedido na empreitada. Se fosse outro diretor a fazer um remake bacana de um tremendo sucesso asiático, tudo bem. Mas estamos falando da lenda viva do cinema – Martin Scorsese. É inevitável não desejar mais.

Como citado anteriormente, o filme começa bem e explora as personagens. Vemos Colin (Matt Damon) sendo agraciado por Frank Costelo (Jack Nicholson) desde de criança. Os anos passam e Colin torna-se seu fiel infiltrado dentro da polícia. Outro ponto interessante é o impacto e remorso de Billy (Leonardo DiCaprio) ao citarem o passado obscuro de seus parentes.

Embora siga ao pé da letra algumas idéias do original, o roteiro peca ao deixar de lado um dos elementos fundamentais da trama do filme chinês: o senhor do seu destino é você mesmo. Deixado isso de lado, todo o esforço do primeiro ato se esvai até a pífia solução final, para não dizer ridícula, que comentarei posteriormente.

A elegância habitual dos planos de Scorsese estão presentes na película, mas ficam menos freqüentes no último ato. Mesmo a trilha de Howard Shore, que possui até Rolling Stones, pouco acrescenta a trama. A música apenas emoldura os belos planos do diretor. Tudo parece muito deja vu, até as escolhas de locação, que são idênticas ao original. Os encontros no telhado do chefe Queenan (Martin Sheen) com Billy, o encontro no cinema de Frank e Colin, o assassinato no elevador no final, entre outras. Talvez esteja errado, mas me parece que Scorsese apenas cumpriu uma tarefa. Foi um profissional e não um artista.

O melhor desempenho do elenco fica por conta de Mark Wahlberg com o desbocado e brigão Dignam. A personagem não existe no original e aparece pouco em cena, mas quando surge, toma para si o centro das atenções. Outro destaque é Vera Farmiga que vive Madeleine, uma psiquiatra envolvida com os dois infiltrados. Um dos acertos do roteiro foi aumentar a participação desta personagem em relação ao original. DiCaprio consegue realizar sua melhor atuação ao comando de Scorsese, ainda assim, aquém de Prenda-me se for Capaz. Para quem esperava um Nicholson estonteante, viu apenas mais um vilão. Nada demais. Muita expectativa às vezes estraga. Mas convenhamos que a cena do pinto de borracha no cinema é a cara dele.

Os Infiltrados peca em grande parte por suas escolhas. O fato de Frank Costelo ser um informante do FBI é um tanto quanto forçado. Por que infiltrar alguém na polícia e depois denunciá-lo ao FBI? Outra escolha equivocada e já citada foi extirpar do roteiro a reflexão sobre o destino que enlaça a resolução final do original. Incomodou-me o final absurdamente político correto. No longa chinês, o mal (Colin) vence e ninguém fica sabendo. Ele escolhe seu destino, mata todos que sabem de sua identidade e assim, ninguém nunca saberá a verdade. Agora, o remake americano promove uma vingança sem sentido. Código de posturas de Hollywood: o mocinho sempre deve vencer. Se a intenção era realizar um filme sobre vingança, por que não fazer um remake do coreano Old Boy? Melhor não. Nem quero imaginar o que fariam com o final.

Entretanto, uma escolha em especial me felicitou muito. Billy é avisado, por um dos seus comparsas, que encontraram o traidor do grupo. Ele pega o endereço e diz estar a caminho do local. Sabemos que Billy é o traidor e que ele já se encontra no local. Ele sai do prédio, dá a volta e assisti incrédulo a morte de Queenan. O comparsa que o avisou é ferido, e em uma cena, a melhor do filme, o questiona: como você apareceu naquele local se o endereço estava errado? Sensacional, pena que faltaram mais idéias originais assim durante o filme.

Claro que algumas escolhas comprometeram o desempenho do filme, mas ainda assim, Os Infiltrados é um longa acima da média. Recomendo que assistam, mas depois, procurem nas locadoras o original chinês. Uma coisa ainda não entendo: qual a viabilidade de fazer remakes tão recente diante desta globalização da comunicação, da internet que disponibiliza filmes do mundo inteiro com legendas em todos idiomas, da ampla distribuição de DVDs pelo mundo e da pirataria? Se alguém tiver a resposta avisem aos produtores de Hollywood, com cópia para Scorsese.


Os Infiltrados (The Departed - 2006)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Martin Sheen, Vera Farmiga, Mark Wahlberg, Anthony Anderson, Ray Winstone, Alec Baldwin, Dion Baia, Lyman Chen, Derrick Costa, Kristen Dalton.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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