Header Ads

O Labirinto do Fauno

Uma das poucas centelhas brilhantes que iluminam minha vida é a magia do cinema. O brilho e a magia, que nos abundam quando crianças, aos poucos parecem se perder na brisa do tempo. Ao escutar os dizeres “era uma vez...”, eu, ainda criança, me conectava ao mundo dos sonhos. Hoje tento me reconectar através do cinema. Por vezes funciona, mas a imaginação infantil é algo insuperável.

Crescer traz algo de sombrio. Responsabilidades, trabalho, dor e uma certa tristeza (meu sonho era ir para a Terra do Nunca). O Labirinto do Fauno consegue de forma brilhante unir a beleza da magia dos contos de fadas com a dura e sombria vida real em sociedade.

Ofélia (Ivana Baquero) e a mãe mudam-se para uma casa antiga e afastada, durante a ditadura de Franco na Espanha. Diante do tumulto social da época e dos infortúnios familiares, a garota vive sua realidade imaginária onde habitam fadas e um estranho fauno.

[O texto crítico abaixo cita dados da trama.
Desaconselhável para quem ainda não viu ao filme]

O longa dirigido por Guillermo Del Toro (HellBoy, A Espinha do Diabo) é uma obra fascinante. Cada elemento está minuciosamente bem colocado dentro do filme, sem excessos e o mais importante, em prol da estória. O diretor contextualiza com destreza o clima da ascensão de Franco ao poder na Espanha e a implacável caça aos esquerdistas contrários ao regime. Mesmo quem desconhece este capítulo da história espanhola compreende o pano de fundo no qual a trama se passa, vide a habilidade da direção e a pontualidade do roteiro.

Del Toro trabalha com perspicácia as personagens coadjuvantes, enriquecendo assim o teor dramático e elevando a qualidade do filme. Observamos o drama da cozinheira Mercedez (Maribel Verdú), a vilania do capitão Vidal (Sergi López) e o estupendo embate violento entre os dois. O drama social espanhol possui uma pungência que por si só renderia um outro filme.

É delicioso ver efeitos especiais e maquiagem trabalhados com sutileza. Hoje, parece estar em moda as explosões visuais - quanto mais efeito e maquiagem, melhor. Perceba como o efeito, apropriado e bem realizado, dá vida ao inseto que persegue Ofélia e se torna, em um passe de mágica, uma fada. A maquiagem do fauno (Doug Jones) é memorável e digna de indicação ao Oscar.

Del Toro surpreende até na escolha estética para o fauno. Corriqueiramente, os faunos são mais identificados com homens que possuem pequenos chifres e a parte inferior do corpo se assemelha a patas de cavalo ou bode. Pode-se conferir um exemplar igual ao mencionado em As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Em O Labirinto do Fauno há algo mais satânico na personagem (tem gente classificando o filme de terror só pelo pôster). A escolha se mostra correta, pois no decorrer da trama, ficamos sempre desconfiados das intenções do fauno. Seria nosso instinto católico avesso às mentiras do diabo? Não sei, mas Del Toro faz questão de salientar essa desconfiança quando Mercedez diz a Ofélia que sua avó pedia para tomar cuidado com os faunos.

Não há como não se apaixonar com a doçura de Ofélia conversando com o irmão, ainda em gestação na barriga da mãe. Entretanto, Del Toro está sempre confrontando a magia e a realidade. Na segunda prova, a garota desobedece a observação do fauno e come uvas. Desobediência que se vê anteriormente, na escolha de uma das três portas a serem abertas pela chave de ouro. A fadinha indica a porta do meio, mas Ofélia abre a da esquerda. A desobediência rende duas conseqüências distintas – uma boa e outra quase má. Não se deve apenas seguir as regras, às vezes, é preciso fazer escolhas. Essa brincadeirinha educativa é de fundamental importância para a conclusão da trama.

Tecnicamente, o filme se mostra sofisticado e de bom gosto. Saliento a trilha sonora de Javier Navarrete e o lindíssimo tema de ninar. Outro ponto é a estrutura de cortes da montagem que busca sempre acompanhar o movimento de câmera ao passar por uma árvore. Pode parecer meio bobo, mas dão uma ótima fluidez às imagens. Incomodou-me um pouco o uso excessivo de noite americana (filtro que dá um tom de noite, meio azul, a cenas gravadas durante o dia). Entretanto, após verificar que o orçamento do longa foi de míseros cinco milhões, percebi que o uso do filtro foi uma escolha estética baseada na falta de verba para iluminar uma locação onde não aparenta ter tanta energia elétrica.

O Labirinto do Fauno pode soar violento e sombrio demais aos mais puristas e às crianças. A proposta do longa é um choque entre a magia e a realidade, e o final demonstra isso claramente. Em uma cena fantástica, Capitão Vidal observa Ofélia conversar com alguém invisível. Ele não consegue enxergar o fauno, portanto, a magia. De certa forma, a morte de Ofélia nos questiona: será que para enxergar ou viver a magia é preciso se desvencilhar da realidade?


O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno - 2006)
Direção Guillermo del Toro
Elenco: Álex Ângulo, Ariadna Gil, César Vea, Doug Jones, Ivana Baquero, María Jesús Gattoo, Maribel Verdú, Roger Casamajor, Sergi López.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
Tecnologia do Blogger.