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Senhores do Crime

O cinema volta e meia apresenta um longa envolvendo mafiosos. Após o sucesso e a exuberância da Trilogia O Poderoso Chefão, a temática tornou-se exaustivamente abordada, salvando-se poucos como Os Bons Companheiros. Como os gênios Coppola e Scorsese andam meio tristes [Os Infiltrados não me enganou], Senhores do Crime, novo filme de David Cronenberg, dá uma chacoalhada no gênero e com uma percepção sensível e atual destaca umas das organizações criminosas que mais se expande pelo mundo - a Máfia Russa.

Cronenberg que vem do excepcional Marcas da Violência, manteve a sensibilidade de escolher outra estória simples e pungente, e repetir a parceria com Viggo Mortensen. Resultado: um filme simples, forte, importante para o contexto globalizado pós-socialismo soviético e a melhor atuação da carreira Viggo Mortensen [digna de prêmios]. Os mais críticos podem relutar que o roteiro, de Steven Knight, não apresenta nada demais e que Viggo apenas interpreta bem o sotaque. Entretanto, pondero que o filme, um tanto propositalmente, não explora profundamente os alicerces das organizações criminosas provenientes do leste europeu, fato de serem tão recentes. Não se sabe muito bem o aconteceu com este povo pós muro de Berlim, ícone do fim do socialismo Europeu, mas sabe-se que eles enfrentaram dificuldades e sobreviveram. Grande parte, ao se adaptar ao mundo capitalista, optou pelo crime. Afinal, a AK-47, arma facilmente encontrada em qualquer favela carioca é de origem Russa, também conhecida como Kaleshnikov. [cinema é cultura – aprendi isso no filme O Senhor das Armas]

Cronenberg realiza um filme eficiente, que entrete o espectador mais simples e desperta à discussão o mais experiente. A trama explora bem superficialmente o tráfico de mulheres e a indústria do sexo. Entretanto, por debaixo da camadas da trama, percebe-se que o crime organizado russo aproveita da fraqueza do seu povo, mulheres ávidas por uma vida melhor em um país com maiores oportunidades, e constroem a inescrupulosa indústria de escravas do sexo. Basta uma navegada pela internet para provar a real existência disto. Negócios ilícitos como este e extremamente lucrativos constituem os atuais impérios mafiosos russos, que gradualmente se expandem pelo mundo. A trama que se passa em Londres, propositalmente, faz uma citação elegantíssima ao time de futebol Chelsea, que após ser adquirido por um magnata russo, Roman Abramovich, se tornou uma das equipes mais famosas do mundo. Há quem diga que o clube de futebol é uma fachada para lavagem de dinheiro. Aqui no Brasil o dinheiro russo, e igualmente duvidoso de Boris Beresovsky, supostamente financiou o investimentos do Grupo MSI no Corinthians.

Embora a trama tenha todos esse saboroso universo como base, o ponto fraco do filme é justamente a atuação da protagonista, Anna (Naomi Watts). Viggo Mortensen (Nikolai), Vincent Cassel (Kirill) e Armin Mueller-Stahl (Semyon) esbanjam talento. A trilha sonora de Howard Shore, como de costume, invade os tímpanos e enche as cenas na medida exata. E a loirinha continua com aquela cara lânguida e sem sal desde os tempo de O Chamado. Basta conferir a cena final do longa, onde a química necessária não se realiza.

Cronenberg é um diretor discreto, que não gosta de se mostrar com firulas de câmera. Já o considero entre os melhores da atualidade. A singeleza do filme ao apresentar a tramóia finalizada com a seqüência da sauna e a real finalidade de Nikolai no contexto da trama são sensacionais. Fica agora a expectativa para o próximo filme do diretor, que pelo o andar da carruagem, brevemente levará a cobiçada estátua dourada para casa.


Senhores do Crime (Eastern Promises - 2007)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Naomi Watts, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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