Header Ads

No Vale das Sombras

O cinema sempre teve um papel crítico sobre sociedade, vide as obras de Chaplin, mas é bem verdade que nos último anos os diretores em Hollywood tem carregado a mão no molho de pimenta para temperar as películas. No Vale das Sombras, novo longa de Paul Haggis (Crash - No Limite) pode parecer aos olhos leigos mais um filme contra o absurdo das guerras, com uma leve pitada anti-Bush. Porém, a coragem do diretor, e do projeto, faz do filme saltar de um simples panfleto, para uma quase-obra-prima.

Quase-obra-prima? O longa traça com eficiência a angustiante trajetória de um pai à procura de explicações pela morte do filho, recém chegado da Guerra do Iraque, e ainda desenvolve criticas e reflexões pertinentes a sociedade americana. Entretanto, são tantos recortes, tantos temas profundos, que um ou outro se perde ao longo da trama. Trama que começa muito bem, trazendo em si todo o talento de roteirista de Haggis, que também assina o roteiro, mas que perde força no segundo ato, sendo retomado no terceiro.

É estranho perceber o quão amargo é o tom do filme. Tudo parece meio cinza, sem cor, sem vida. A trilha sonora, a fotografia, os movimentos de câmera e até as atuações são bem contidas. O que de certa forma me transmitiu um filme amedrontado ou amordaçado. Hank Deerfield (Tommy Lee Jone), é um ex-militar inteligente, perspicaz, mas fundamentalmente triste. Tristeza que Haggis sabe captar no olhar vigoroso de Lee Jones [Ele merece indicações]. As atuações de Susan Sarandon (Joan Deerfield) e Charlize Theron (Detetive Emily Sanders) pouco se notam, muito embora, as personagens não clamem por grandes interpretações. Ainda assim, vale ressaltar duas cenas fortes e comoventes: a conversa ao telefone de Joan e Hank; e a estória que Hank conta ao filho da Detetive Sanders, em que narra a luta de Davi contra Golias. A batalha realizada no Vale de Elah, que dá nome ao filme[In The Valley of Elah], é uma metafórica e inteligente análise sobre a sociedade e o poder americano. Só esta cena já paga o ingresso.

O maior equívoco do longa foi tentar condensar tantos temas em uma mensagem principal, que a meu ver, é o processo desumanizador da guerra. A conclusão da trama principal, a investigação da morte do filho, soa um tanto simplista, vide a complexidade destrinchada anteriormente. Há um vício em Hollywood em tentar explicar, ou condensar idéias[É preciso explicar o mais imbecil dos espectadores]. O roteiro se faz de reflexões fragmentadas, mas depois tentar dar um norte para aquilo tudo. Por vezes, não é necessário ser tão explicativo. Se a trama principal fosse fechada sem uma conclusão, a cena seguinte, a conversa de Hank com o soldado Ortiez, teria uma força ainda maior. Do tipo: Não sabemos o que realmente está acontecendo no Iraque, mas os garotos, quando voltam, já não são mais os mesmos.

Apesar da escorregada, Haggis ergue o corpo, arruma a postura, encara o espectador de frente e desferre o golpe final. Um arrebatador punch, que leva a nocaute até os anti-americanos de carteirinha. A muito tempo não via tanto simbolismo numa cena. No Vale das Sombras, por muito pouco, não se tornou a obra cinematográfica referencial para os conflitos no Iraque, mas seu recorte dramático e a coragem de Haggis, fatalmente irá inspirar os próximos realizadores que ainda abordarão o tema. Resta saber se a Academia, leia Oscar, irá boicotar o apoiar as insolentes idéias do diretor. Em outros tempos eu diria: esse foi o último filme dele. Felizmente, acho que os tempos mudaram.


No Vale das Sombras (In The Valley of Elah - 2007)
Direção: Paul Haggis
Elenco: Tommy Lee Jones,Charlize Theron, Jason Patric, Susan Sarandon, James Franco, Barry Corbin.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
Tecnologia do Blogger.