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Caché

Filme incômodo. Michael Haneke constrói uma obra envolvente do início ao fim, criando uma atmosfera de tensão latente e paranóia, provocando no espectador mesmo sentimento carregado pelos personagens ao longo do filme.

O casal Anne e Georges Laurent (Binoche e Auteuil) – os nomes dos protagonistas se repetem em vários filmes do diretor – começa a receber fitas com longas gravações da fachada de sua casa, envolvidas em papel com macabros desenhos infantis. Isso afeta toda a vida da família, também composta pelo garoto Pierrot de 12 anos, que passa a viver sob o medo de uma ameaça indefinida. Georges desconfia de Majid, um homem a quem prejudicou quando ambos eram crianças.

Caché explora o terror psicológico mostrando os impactos da ameaça sob a vida dos personagens. Não há nenhum risco real de violência, chantagem ou perigo semelhante. A família simplesmente sabe que está sendo vigiada e isso basta para que comece a desenvolver uma paranóia. Se esbarram em uma pessoa ao atravessar a rua, já é motivo para raiva e conflitos. Se o filho não dorme em casa, já pensam em seqüestro e ativam a polícia. Em momentos de tensão, pequenos fatos causam reações exageradas. Com os nervos à flor da pele, as relações se deterioram, marido e mulher se tornam cada mais vez hostis e os conflitos se exacerbam. Georges, diante da pressão, começa a ter pesadelos e a mergulhar nas culpas do passado.

Haneke coloca o espectador sob toda a tensão a que os personagens estão submetidos. O público recebe praticamente as mesmas informações que a família assustada, ao contrário dos filmes de Hitchcock, por exemplo, que nos provém de um conhecimento que os personagens não têm. Ambos os tipos de suspenses podem ser eficazes, dependendo da forma como são trabalhados. Em Haneke, não se sabe quem é o terrorista. Espera-se que qualquer coisa aconteça (menos o que Majid faz, porque aquilo pega qualquer mortal de surpresa). O diretor brinca com realidade e imagem gravada o tempo todo, nos fazendo assistir às fitas pensando ser parte do filme. Com esse recurso, Haneke põe o espectador numa posição de observador vigilante e voyeur, assim como o terrorista da trama. A última cena poderia tanto ser realidade como uma nova fita.

Assim, percebemos que a curiosidade é inerente à natureza humana. Sempre se tem o impulso de saber sobre a vida alheia. Por que Georges, Anne e a torcida do Flamengo de personagens cinematográficos que recebem vídeos, cartas ou ligações anônimas não cortam o mal pela raiz ignorando-os? Por que não levam as fitas da porta da casa diretamente à lixeira, evitando uma incursão ao vídeo cassete? Afinal, a curiosidade matou o gato e todo mundo sabe disso há anos. Como agiria o vilão se o mocinho não se submetesse ao seu jogo?

Acompanhando a curiosidade, outro impulso humano inevitável é a necessidade de confirmação de segurança. Precisamos saber até que ponto estamos seguros. Portanto, surgindo uma dúvida ou uma mínima ameaça, vamos atrás de informações que nos provem (ou não) que estamos a salvo. E só assim dormimos tranquilamente. Daí a necessidade de sempre checar o conteúdo das mensagens anônimas, pois se sabe que elas possuem potencial periculoso. Já que estamos em situação de risco, precisamos saber qual. Esperar por todo tipo de infortúnio faz qualquer um surtar.

Quando sob ameaça, a mente corre solta e as pessoas pensam em tudo. Impossível não cogitar possibilidades e procurar saber a identidade do anônimo. Assim faz o espectador em Cachê, provocado pelo diretor. Haneke parece dar pistas em mais de um sentido. É um filme para pensar. A tendência é tentar montar um quebra-cabeça, mas por mais que se quebre a cabeça, não é possível encontrar uma solução perfeita e fechada. Há várias possibilidades e indícios para diversas interpretações. Há quem pense que as fitas tenham sido feitas por Majid e seu filho. Outros pensam que o filho de Majid se aliou a Pierrot (e a última cena talvez corrobore essa hipótese). É aceitável também que o terrorismo não seja obra de nenhum personagem, mas de um sujeito aleatório do mundo e a paranóia tenha surgido a partir do próprio psiquismo de Georges sob tensão – seus arrependimentos, suas culpas - imaginando a motivação que alguém teria para se vingar dele. A tese do aleatório faz ainda mais sentido para quem conhece o trabalho de Haneke no também interessante e ainda mais incômodo Violência Gratuita. No fim, todas as hipóteses têm algum embasamento.

Michael Haneke faz um trabalho no qual são notáveis suas habilidades de direção e manipulação do emocional do público. Há planos muito criativos, como o da virada olímpica de Pierrot na piscina ou o que acompanha Georges e Anne andando e conversando na rua e entrando no carro. O diálogo continua dentro do veículo de vidros fechados, porém em tom abafado, como se o espectador ouvisse do ponto de vista de alguém que os observa de fora, um ser vigilante. Esses detalhes enriquecem o trabalho do diretor, que vem construindo uma interessante carreira cinematográfica.

Caché (Caché, 2005)
Direção: Michael Haneke
Elenco: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Bernard Le Coq, Walid Afkir, Lester Makedonsky.


Mariana Souto - marianasouto@gmail.com
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