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A Bruxa


A Bruxa pode ser considerado um filme de arte, escondido por trás de um filme de horror, ou melhor, um horror travestido de filme de arte. Embora nunca saberemos o que de fato ele é, um coisa é fato, ele é uma obra prima. O diretor estreante em longas, Robert Eggers, estabeleceu um novo patamar para os amantes do terror com esse conto simples e muito bem lapidado sobre como uma mulher se tornava uma bruxa. Belíssimo e levemente assustador, o longa é muito mais um suspense sufocante, que deixa as mãos dos espectadores suadas, que vai te enfeitiçando a cada nova cena, guiando-o até onde ele quer: o espetacular desfecho da trama. É claro que um filmaço desse é coisa do capeta, é óbvio. Mas num é que ele aparece para assumir a autoria no final? Jesus.... Cruz Credo, mangalô, treis veiz... sartei de banda.

Com um designer de produção espantoso, refazendo os EUA do século XXVII, temos uma família, arduamente cristã, tendo sua fé testada após deixarem a sua comunidade e tentarem a sorte em outros campos. O elenco é primoroso, desde as crianças pequenas, aos pais, mas com destaque para a filha mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy) e o irmão Caleb (Harvey Scrimshaw). Perceba como a puberdade, com a natural curiosidade masculina de Caleb, acaba virando objeto de discussão sobre a presença do diabo na vida das crianças. O roteiro é muito feliz em usar o excesso religioso daquela sociedade como uma espécie de castração social, seja física ou mental. Algumas variantes do protestantismo, até hoje, falam demais no Diabo, mas quando ele de fato nos ronda, o dito cristão nunca está pronto para a provação. A Bruxa é sobre isso: o mal sempre esteve por perto, a questão é como lidamos com ele.

A fé é uma muleta? Uma fuga? Ou algo bom que se mal usado pode ficar ainda pior?

O longa ainda acerta em cheio nas referência e histórias antigas sobre bruxaria e vamos percebendo diversas doses ao longo da trama. Thomasin é acusada de tudo e mais um pouco e, mesmo alegando inocência, sua punição é ser tirada do seio da família, pois ela é uma moça e já é hora de casá-la. A Bruxa ousa, sutilmente, em um debate feminista, pois mostra a ausência de escolhas às mulheres daquela época. Você é isso, serve pra isso, vai fazer isso, e vai morrer sendo sempre isso. Convenhamos, sendo mulher naquela época e alguém o oferecesse algo melhor, você não aceitaria? E se a proposta viesse de um ser de chifres? Um bode? Você aceitava?

Antes de chegarmos ao final percebemos que há uma força maquinando algo na família para ficar com Thomasin. Mas essa força não quer levá-la simplesmente, quer mostrar que com ele, tudo vai ser melhor. O brilhante roteiro Robert Eggers flerta com a verdadeira essência do mal: a barganha. Eu, o diabo, te dou o que você sempre quis, em troca, você trabalha pra mim. Mas o "coisa ruim" é ardiloso e marqueteiro, ele te oferece, mas é você que tem que pegar. Nada é forçado. É muito bom gosto em um filme apenas para falar da dicotomia mais importante dessa existência, o BEM versus o MAL.

A Bruxa é uma obra invejável que nos faz sentir acoados e nos traz de volta à origem da maldade. Depois desse filme, eu juro, eu juro senhor, eu juro Jesus Cristo, meu padim PadeCiço, eu nunca mais vou proferir uma palavra para um bode. Eu juro. Vai que ele é descendente do Black Phillip.

Eis Black Phillip. Melhor não dar ouvidos para o que ele diz. 


A Bruxa (2015)
Direção: Robert Eggers
http://www.imdb.com/title/tt4263482/

  Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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