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Fome

A batalha sangrenta entre o Exército Republicano Irlandês (IRA) e a Inglaterra já rendeu inúmeras adaptações cinematográficas, em que se destacam Em Nome do Pai e Domingo Sangrento. Fome, filme de estréia do diretor Steve McQueen (não é o famoso ator já falecido), mostra um capítulo assustador dessa guerra em que prisioneiros políticos submetem-se a situações de total desumanidade, recorrendo até a greve de fome, para lutar pela liberdade. O longa é doloroso visualmente, pois não é uma das coisas mais lindas do mundo ver uma pessoa definhando até a morte por falta de alimentação. É triste ver os letreiros finais do filme e perceber, quanta gente teve que morrer para que vivamos isso que temos hoje. Se temos liberdade e a usamos como libertinagem, aí é uma outra discussão. Contudo, fica a dúvida: será que a nova e, supostamente, livre República da Irlanda ainda se lembra de Bobby Sands?

O longa segue a clássica linha européia, com longos planos contemplativos, sem muitos diálogos, construindo visualmente o enredo. Por minutos, o espectador não ouve a voz de nenhuma dos personagens, criando assim uma atmosfera incômoda e as vezes angustiante. Entretanto, essa calmaria inicial muda com o sugirmento na tela de Bobby, interpretado mostruosamente por Michael Fassbender. A magreza da caracterização do ator assusta, lembrando Christian Bale em O Operário. Fassbender vai além e choca o espectador nas cenas finais, em que só se vê pele e osso. Como os movimentos são mínimos, devido a debilidade física da personagem, o ator se comunica com o espectador só por olhares. Dói ver o sofrimento desse homem. Dói ainda mais saber que tudo aquilo aconteceu de verdade a pouco mais de 30 anos, em 1981.  Fassbender realiza uma atuação estratosférica, tão elevada que em momento algum enxergamos o ator, apenas Bobby Sands.

Curioso é que recentemente produziram a fraca biografia de Margaret Thatcher, em A Dama de Ferro, na qual pouco mencionaram sua frieza no tratamento da questão do conflito com a Irlanda do Norte. Quantos irlandeses morreram em nome desse pulso firme? Não se sabe e nunca se saberá. O certo é que tão pouco o IRA e a Inglaterra eram santos nessa história toda. A questão que fica é: depois de tantas mortes, a República da Irlanda é realmente livre? Não sei, pois a economia européia não vai nada bem, ou seja, a liberdade nunca é plena. Fome é filme assustador que busca refletir muito além das duras imagens que exibe. O formidável diálogo de Bobby e o padre, em que fica decidido a greve de fome, é uma cena para ser vista, revista e discutida em sala de aula. O que você faria pela liberdade? Morreria por ela?


Fome (Hunger - 2008)
Direção: Steve McQueen
Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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