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Lula, O Filho do Brasil

A polêmica política que cerca Lula, O Filho do Brasil não deve entrar nas análises críticas cinematográficas sobre o filme. Contudo, o cinema impacta a sociedade e essa força é recíproca. O texto abaixo discorre sobre o longa e tenta, sem apegos políticos, refletir superficialmente o impacto sobre a população brasileira.

Lula, O Filho do Brasil é um filme encantador que mostra a garra e a perseverança de uma pessoa maravilhosa que além de acreditar em um país melhor, acreditou muito em si - Dona Lindu, a mãe de Lula. Opa, tem algo errado, não? O filme não é uma cinebiografia sobre o Lula? Sim, contudo o recorte, acertadamente, escolhido foi: o homem que hoje é o presidente do Brasil, nada mais é que o reflexo de todo esforço realizado por sua mãe.

Da pobreza do sertão de Pernambuco ao totalitarismo da Ditadura contra os sindicalistas, Dona Lindu (Glória Pires) e a base e o fio condutor do caráter de Lula. Ancorada na interpretação sempre brilhante de Glória Pires, o longa de Fábio Barreto usa a mãe como uma espécie de "muleta dramática", e assim como em 2 Filhos de Francisco, a fórmula funciona muito bem.[Veja pelo poster, na qual Glória Pires está maior e na parte superior]. Você pode até odiar os protagonistas, a dupla sertaneja ou o presidente Lula, mas há de convir que a história de ambos é belíssima.

Do ponto de vista estético é um filme sem grandes surpresas, pois graças aos deuses cinematográficos, Fabio Barreto não tenta ser maior ou melhor que a estória. Aqui cabe uma reflexão política, pois o dono do filme é o Lula, e não o diretor. Isso explicaria por que há muito pouco dos erros clássicos da família Barreto no longa. Infelizmente, a simplicidade acaba virando simplismo em algumas cenas, perdendo assim boas oportunidades de explorar melhor o espaço cinematográfico. Perceba o quão deselegante é a apresentação dos letreiros iniciais, chapados em fundo negro, quando na verdade poderiam ser incorporados as imagens da viagem da família do sertão para São Paulo. Ainda que seja o melhor filme da carreira de Fábio Barreto, há deslizes. Dois merecem ser sublinhados. A diferença da cor de pele da primeira esposa de Lula, Lurdes, na infância, bem moreninha, e na juventude, branquinha até demais. Outro ponto falho é a fraca cena sobre o acidente em que Lula perde o dedo. Mas a exemplo do filme Ray, cinebiografia de Ray Charles, conduzido com o gosto duvidoso do diretor Taylor Hackford, a estória do protagonista acaba aparando as arestas.

A história dessa torneiro mecânico, teimoso, que mesmo nem sabendo falar de forma formal a língua portuguesa, botou na cabeça que poderia fazer algo por esse país, é sensacional. Não se emocionar com o empenho de Dona Lindu, diante da cena final do filme, é praticamente atestar a própria desumanidade. No fundo, ela é a minha mãe, a minha avó, ou os meus antepassados, que por conta de uma oportunidade melhor, desistiram da própria vida em dedicação a dos filhos. Quem não possui exemplos desses na família? É nesse ponto, populista, reconheço, que as pessoas se enxergam na figura de Lula. O filme simplesmente emoldura isso. O que para uns pode ser visto como um drama piegas um tanto novelesco, para mim é uma fórmula dramática pop muito funcional.



O filme não teria o devido impacto se não tivesse uma interpretação contudente para o protagonista. O Lula vivido por Rui Ricardo Diaz possui uma expressividade forte e que consegue fisgar grande parte dos espectadores. O crítico mais detalhista poderá enxergar, com razão, um certo maneirismo excessivo no sotaque e na apresentação da mão lesionada. Mas são ligeiras escorregadas que não comprometem o impacto do longa.

O filme de Fábio Barreto percorre apenas parte da vida de Lula, e outros capítulos, principalmente o período político, da década de 1980 até a eleição para presidente, carecem de outros longas. Claro que os próximos, sem a participação da Globo Filmes, pois ficaria difícil de esclarecer a manipulação do debate eleitoral de 1989 - Se você é novo, veja o vídeo com relato do excepcional jornalista Armando Nogueira.

Lula, O Filho do Brasil é cinemão para comer pipoca e arrebentar na bilheteria. Gostando ou não do Sr. Luís Inácio a história desse homem precisa ser conhecida, aqui e lá fora. O debate depois é livre, pois o importante é que hoje podemos discutir nossas idéias e ideais onde e quando quisermos.
Debate político - A pergunta fundamental é: esse era o momento mais oportuno para lançar esse filme? Não, pois parece claro a intenção populista de usar o filme como apelo nas eleições presidenciais de 2010. As discussões sobre filme que vão tomar as mesas de bares, repartições de trabalho e até elevadores, residirão sobre o embate ideológico e ético contra a estratégia de marketing e a propaganda política. Intelectuais irão filosofar sem direção sobre esse conflito, como fez Diogo Mainardi. Outros encontrarão visões mais contundentes e salutares. Quem estará com a razão? Para mim não há razão, nem certo ou errado.

Nunca votei no Lula ou em qualquer canditado do Partido dos Trabalhadores (PT). O discurso esquerdista igualitário não me cativava, e os candidatos não me agradavam politicamente. Lula conseguiu sua oportunidade e fêz-se presidente do país, goste ou não. Se ele pretende dar continuidade a gestão petista no Palácio no Planalto usando o cinema como uma das ferramentas de comunicação, eu não vejo, particularmente, problema algum. Propaganda e política é isso. Ou vai me dizer que o filmes de Leni Riefenstahl, cujas obras mais famosas são os filmes de propaganda que ela realizou para o Partido Nazista alemão, não possuem relevância social e até cinematográfica? As vezes parece sujo e asqueroso, mas é preciso um certo distanciamento temporal, passar alguns anos, para uma análise mais precisa. Aos anti-Lulistas vai uma dica: atacar o filme e suas escusas intenções pode ser justamente o objetivo do longa -  manter o nome Lula e o PT na pauta do dia. Já diz o ditado: falem mal ou falem bem, mas falem de mim.



Lula, O Filho do Brasil (2009)
Direção: Fábio Barreto
Duração: 128 minutos

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