Header Ads

Fonte da Vida

Dos poucos diretores ousados que ainda restam no mainstream cinematográfico, não há dúvidas que Darren Aronofsky figura nesta lista. Fonte da Vida, seu mais recente trabalho, traz uma fantástica e fantasiosa reflexão sobre o ciclo da vida e convida o espectador para um tipo de experiência pouco vista nos cinemas em dias atuais.

Aronofsky é um jovem diretor que debutou na telona com o estranho e incomum e logo após, nos deu o avassalador Réquiem para um Sonho. Em Fonte da Vida, o diretor aprofunda os conflitos psíquicos já trilhados nas obras anteriores e mostra com maturidade e ousadia que o espectador pode vivenciar, hoje, mais do que entretenimento nas salas de cinema.
Embora a trama e a mensagem pareçam excessivamente complexas (mas não são), o espectador mais acostumado com o cinema-mastigado-pronto-para-deglutição pode não se interessar em ingressar na viagem proposta pelo filme. Viagem que Aronofsky nos conduz frouxo, não por erro, mas para viabilizar que tenhamos nossas conclusões, independente do que ele tenha tentado nos dizer. Se você deseja assistir algo substancialmente relevante e que lhe fará refletir sobre uma das questões fundamentais da existência - a morte - assista a Fonte da Vida.

[O texto crítico abaixo cita dados da trama.
Desaconselhável para quem ainda não viu o filme]


O filme possui três linhas narrativas (três estórias – o pesquisador médico, o astronauta e o conquistador) que se convergem para um fim em comum. A direção constrói com delicadeza rimas visuais citando uma estória dentro de outra. Seja a neve sobre o vidro, iluminada com luz amarela, que nos lembra a nebulosa ou a pintura na parede que nos remete à Espanha do século 16. Percebemos claramente a conexão entre as estórias, pois o protagonista é sempre interpretado por Hugh Jackman. Não se sabe é o porquê destas conexões. Pode-se concluir que as personagens são reencarnações de um mesmo espírito que busca, vida após vida, uma resposta. Esta é uma das respostas possíveis, embora no meio do longa saibamos que o conquistador é apenas uma personagem ficcional de um livro. As conexões entre as narrativas são claras, apesar de não conseguirmos uma explicação lógica para elas (será que precisam?). Afinal, o astronauta é a psique do pesquisador médico? Pra mim é, e pra você?

Esteticamente, o longa possui uma elegantíssima fotografia, de Matthew Libatique, que usa com freqüência um amarelo meio alaranjado (ou laranja meio amarelado, como queiram) como uma clara citação à morte. A nebulosa que vai explodir possui esta cor, assim como a iluminação do hospital em que Izzi (Rachel Weisz) morre. Aronofskiy optou por realizar os efeitos especiais usando experiências químicas feitas em laboratório, ao invés de CGI (computação gráfica). De acordo com o diretor, o CGI faria com que o filme envelhecesse com o tempo, enquanto que através do método usado isto não ocorreria.

Outro ponto alto é a trilha de Clint Mansell, habitual colaborador do diretor, que realizou umas das melhores trilhas dos últimos anos em Réquiem para um Sonho. Perceba como a música complementa a beleza das cenas em que o astronauta voa e percebe que também vai morrer. Mas se há algo que precisa ser citado é o trabalho de edição Jay Rabinowitz. As cenas das três linhas narrativas se encaixam com uma fluidez e simplicidade paradoxal a complexidade da trama. Ainda sim, Aronofsky dá-se ao luxo de fazer rimas visuais usando círculos (o anel), fazendo alusões aos ciclos da vida. Um excelente trabalho que traz tranqüilidade a um filme tão denso.

Claramente, a atuação de Hugh Jackman merece um parágrafo especial. Quem diria que o senhor Wolverine fosse nos dar uma interpretação tão firme e dramática. Tudo bem que ainda seja cedo para premiações, mas é fascinante ver que por trás daquele estereótipo de galã de filme de ação, há um potencial ator. Rachel Weisz tem menos espaço em cena, mas seu comovente discurso antes de morrer eleva o filme para um grau metafísico.

Talvez o único problema do longa resida em não ser tão claro em sua mensagem. A revelação final de Tommy, que o faz escrever o último capítulo do livro, fica solta para nossa livre avaliação. Por que ao tomar a seiva da árvore da vida o conquistador tornou-se parte do ambiente vegetal dali? Será que a maneira de ser imortal está no fato de obedecer ao ciclo da vida e deixar sementes na terra, assim como as árvores? Como citei acima, grande parte dos espectadores se acostumaram com um cinema fast-food-mastigado, e assim, quando se deparam com obras como Fonte da Vida, tem dificuldades em compreendê-las. Acredito que talvez tenha sido proposital este afrouxamento no roteiro para que o espectador interpretasse a bel-prazer o final. Entretanto, é importante salientar que a mensagem não precisa ficar tão clara para o espectador, mas talvez o caminho para chegar a ela não precise ser tão complexo. Isso não tira a beleza e a importância do trabalho realizado por Aronofsky.

Fonte da Vida não é cinema de entretenimento e acredito que 50% dos espectadores que assistiram ao filme saíram cuspindo marimbondos das salas do cinema. Embora eu não goste de dizer isto, é preciso certa bagagem, cinematográfica e de vida, para aceitar a viagem proposta pelo filme. São como os sapos de Magnólia, que para uns são o ápice da reflexão e da arte e para outros são mera estupidez sem sentido. Aos segundos resta dizer: não esquente, da próxima vez que você assistir, você entende.


Fonte da Vida (The Fountain - 2006)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
Tecnologia do Blogger.