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Batismo de Sangue

Gradativamente a retomada do cinema brasileiro dá passos em realizações mais consistentes e maduras. Maturidade define bem o estágio cinematográfico na qual encontra-se Helvécio Ratton, responsável pelo eficiente Batismo de Sangue. O filme deixa de lado o esquerdismo piegas nas adaptações dadas pelos cineastas a ditadura militar no Brasil e mostra com sensibilidade e força o que de fato a sociedade vivenciou.

O longa começa de forma irregular, com atuações um tanto acanhadas, o que quase fragiliza a apresentação das personagens. Marku Ribas, que interpreta o líder guerrilheiro Carlos Marighella, está pouco a vontade em cena e sua atuação soa um pouco forçada e não consegue convencer. Felizmente, isso não compromete o filme, que após os 20 minutos iniciais, ganha energia e tensão.

Aparentemente, espera-se que Batismo de Sangue narre a participação da Igreja, através de freis dominicanos, na luta contra a ditadura. Porém, o ótimo roteiro de Dani Patarra e Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo de Frei Betto, opta por um passeio cíclico em que o fio central é o suicídio de Frei Tito. Toda a estória narrada é apenas o arcabouço de algo maior, e dramático, que é a fatídica morte, apresentada já na primeira cena do longa. Perceba que a última cena fecha justamente o caráter cíclico que menciono.

Optando por uma narrativa clássica, que é realizada com uma impecável eficiência, o filme conta sua estória, choca e comove o espectador. Deixa explícito - isso foi a ditadura. As seqüências de tortura são usadas no modo e tempo certo, sem excessos. No último ato, Ratton evidencia o aspecto psicológico que a tortura acaba acarretando, que é a força motriz para o suicídio de Frei Tito. Assim, Batismo de Sangue diz: a pior violência e o que mais doeu, foi ter que conviver com todas as terríveis lembranças. Neste ponto, o longa me remeteu ao excelente A Morte e a Donzela, de Roman Polanski.

A direção de Ratton quase passa desapercebida. Em Batismo de Sangue, o diretor chega a uma maturidade no qual sabe o que necessita para contar, e bem, a estória. Não é preciso virtuosismo ou estripulias cinematográficas onde, na cena, não se faz necessário. Um trabalho discreto, que remete ao realizado por Robert DeNiro em O Bom Pastor.

Evidentemente, o trabalho de Ratton foi muito bem amparado pelo roteiro. Ao longo estória, o filme indica pequenos eventos reais para que o espectador possa identificar cronologicamente os acontecimentos. A chegada do homem a lua, as revistas retratando a Guerra do Vietnã e um jogo em que Pelé quase fez o milésimo gol. Cada acontecimento é retratado, em meio a trama, com uma ligeira crítica. Sensacional é a cena, em que através do olhar de Frei Beto (Daniel de Oliveira), o espectador percebe que a sociedade brasileira está mais preocupada com futebol, o milésimo gol, do que com a atual situação do país. Mais tarde no filme, há uma triste constação - a revolução pretendida para o povo, não teve a participação dela.

Outro ponto a ser ressaltado é o trabalho de direção de arte e figurino, que compôs, sem excessos, o Brasil dos anos setenta. A fotografia também cumpriu seu papel através de um tom meio amarelado, quase envelhecido, que contribuiu fortemente para o conceito visual do filme.

Mesmo nas atuações, não há um grande destaque. Caio Blat, que interpreta Frei Tito, e Cássio Gabus Mendes, que interpreta Fleury, têm personagens mais pungentes, mas realizam o trabalho dentro do padrão de cada artista. O cinismo e o sadismo de Fleury até amedrontam, mas a personagem não é transformada em um típico monstro ficcional, como fazem equivocadamente com celebridades más da história em adaptações para o cinema. Fleury é um homem, mau, mas que está cumprindo com dever que lhe foi outorgado. Frei Tito é um jovem comum, que veio do norte para ter uma vida melhor. Entretanto, mesmo sendo a base fundamental da narrativa, ele não se destaca ou é a personagem principal. É um tímido brasileiro que morreu sob a batuta militar da ditadura, no qual o drama inevitavelmente nos identificamos. As lágrimas só vão dar a graça nos espectadores no momento derradeiro em que Frei Tito implora para sair do exílio e voltar pra casa, o Brasil pelo qual trocou sua vida.

Ao fim, Batismo de Sangue traz um gosto amargo na língua. Um retrato cruel de pessoas que se esforçaram por algo melhor e colheram dor e sofrimento. Resta saber se terá valido a pena. Quantos iguais a Frei Tito não morreram, seja no Brasil quanto nas outras ditaduras pela América Latina. Tantos deram a cara a tapa para melhorar este país, e o que vemos hoje, é uma corja minúscula tentando destruí-lo. Batismo de Sangue é sem dúvida o melhor filme que retrata o sentimento do período da ditadura no Brasil.

[O filme conta com parte do elenco de Belo Horizonte - Jerry Magalhães, Cynthia Falabela, Carlos Magno, Cláudio Costa Val, e outros. Jerry está bem como o preso político e Carlos Magno está impagável de torturador de batina]


Batismo de Sangue (2006)
Direção: Helvécio Ratton
Elenco: Caio Blat, Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, Ângelo Antônio, Léo Quintão, Odilon Esteves, Marcélia Cartaxo, Marku Ribas, Murilo Grossi, Renato Parara, Jorge Emil, Jerry Magalhães, Cynthia Falabela, Carlos Magno, Cláudio Costa Val.

Gilvan Marçal - gilvan@gmail.com
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